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terça-feira, 22 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010) | Palavras de Manuel Alegre no dia em que o Amigo Saramago Morreu

Sobre o escritor e amigo José Saramago, Manuel Alegre escreveu um texto, que te deixo.

JOÃO

José Saramago
18-06-2010 Manuel Alegre

Morreu José Saramago, Prémio Nobel da Literatura, cidadão e homem da mais rara dignidade. Éramos amigos. Dele recordo, tanto como os livros inesquecíveis, os momentos partilhados, tudo quanto nos aproximou sempre para lá das diferenças.

Saramago foi e será uma referência universal da grandeza e do desassombro, estimulando o espírito critico, a bondade e a decência, a insubordinação cívica, o humanismo e a força transformadora da liberdade, mesmo nas circunstâncias mais rudes, quando parece dar-se um eclipse da própria esperança.

A sua vasta obra, com títulos imperecíveis, de Levantado do Chão ou Memorial do Convento a Ensaio sobre a Cegueira ou A Viajem do Elefante , não ocultando nenhum dos restantes, é uma doação ao futuro a que pertence desde há muito. Os portugueses, a quem deu alegrias, interrogações, raízes para a vida, sentem o luto profundo da sua perda, ainda que cientes, como os leitores de todas as partidas onde a sua luz mora, de que uma personalidade assim, em rigor, nunca morre.

Participo por inteiro da consternação e dor do país. E do mundo, uma outra casa sua. A minha candidatura, que se associará às homenagens que o Estado democrático lhe deve, exprime as suas condolências a quantos amaram, foram próximos e integram a vasta comunidade de leitores de José Saramago, em particular a Pilar del Rio, sua mulher, e Violante Saramago de Matos, sua filha. E assegura que assumirá sem reservas o essencial do seu legado à língua e à cultura portuguesas.

Manuel Alegre

PÚBLICO.PT | Frase do Dia | Cartoon do Bartoon | Sobre José Saramago

Deixo o cartoon do Bartoon do dia 20 de Junho, dia da despedida a Saramago, que fala, a brincar, de coisas muito sérias sobre acontecimentos actuais e relevantes. Desta vez não me fez rir! Estou de luto!
Mas faz-nos, com toda a certeza, pensar no Presidente "de todos os portugueses que temos". O Vaticano mesquinho e o Cavaco medíocre que não soube ser o Presidente do único Prémio Nobel da Literatura de Lígua Portuguesa!
Meu Presidente deixou de ser. Apesar de nunca ter votado nele, ainda o considerava o meu Presidente.
Deixo, também, a frase que o Público escolheu como a Frase do Dia que acabou de findar.
Rui Tavares é um dos Eurodeputados eleitos pelo Bloco de Esquerda para o Parlamento Europeu.
Esta frase vai ao encontro do que eu também penso sobre as elites portuguesas que são, na generalidade, medíocres e mesquinhas... Tal como a maioria do povo português!
JOÃO
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A FRASE
“Um escritor aprende também muito nascendo e vivendo num país onde as elites são medíocres e mesquinhas, e cujas imaginações não aceitam que pode ter nascido um génio na Azinhaga, Ribatejo."
Rui Tavares, PÚBLICO, 21-06-2010
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PUBLICO.PT - Bartoon - 20-Junho-2010
Clica na imagem 2 vezes para a aumentares!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Elogio a José Saramago | Ministra da Cultura | Discurso na Despedida - CML

Deixo, para recordar, um dos discursos que mais gostei: o discurso em nome de Portugal, lido pela Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, na cerimónia da despedida a José Saramago, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa, ontem, Domingo, dia 20 de Junho, antes do funeral que seguiu para o Cemitério do Alto de São João, pelas 12:30, onde o corpo foi cremado.
JOÃO


ELOGIO A JOSÉ SARAMAGO

20-06-2010

Sr. Primeiro-Ministro
Senhores membros do Governo
Sr. Presidente da Câmara de Lisboa
Sra. Vice-Presidente do Governo de Espanha
Ilustres individualidades presentes
Caras Pilar Del Río, Violante Saramago, e seus filhos,

Senhoras e Senhores,

Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra, um soldado maneta, uma mulher que tinha poderes, e um padre que queria voar numa Passarola e que morreu doido;

Era uma vez Jesus, que disse a Maria Magdalena - “quero estar onde a minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos”;

Era uma vez um cão que lambeu as lágrimas a uma mulher desesperada num mundo de cegos, desejando também cegar para ser poupada aos horrores que a vista lhe trazia;

Era uma vez a morte, que tinha um plano e que o cumpriu – abraçou-se ao homem sem que ele compreendesse o que lhe estava a suceder, e ela, a morte, que nunca dormia, deixou descair suavemente as pálpebras enquanto adormecia; no dia seguinte, ninguém morreu;

Era uma vez um homem que, quando morreu, partiram 2 pessoas: saiu ele, de mão dada com a criança que foi – tal como o próprio José Saramago previu, nas suas próprias palavras.

Era uma vez e tantas outras vezes, o respeito à terra e aos homens, a luta contra as injustiças, a defesa dos direitos humanos, a denúncia contra a guerra do Iraque ou contra a ocupação palestiniana, as causas dos Sem Terra, do movimento anti-globalizante, da preservação do ambiente, ou do anti-clericalismo desassombrado.

Estas e tantas outras, foram as histórias com que o ateu místico, religioso laico, interrogador de Deus e dos homens, José Saramago, “comunista hormonal” nas suas palavras, questionou Portugal e o mundo incessantemente, directa ou metaforicamente.

A liberdade do pensamento define o criador: Saramago foi voz lúcida, inconformada, firme, insubmissa na luta contra a desigualdade entre os homens – esta sim “a verdadeira miséria”, dizia.

Parte da imensa receptividade que as suas obras têm merecido em todo o mundo, e que a atribuição do Nobel cimentou e glorificou, deve-se a esse carácter humanista, à esperança que a sua obra impõe ao Homem.

Recebeu o Prémio Nobel da Literatura «... pela sua capacidade de tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia», segundo a Academia Sueca.

Fiel ao seu compromisso com a consciência, usou a escrita para uma reflexão sobre as grandes causas da humanidade, edificando uma obra coerente, ousada, sólida, moldada pela ética, visando, sempre, a dignificação do Homem.

E fê-lo por vezes subvertendo normas - quer de narrativa (o seu estilo é inconfundível, nas suas frases longas e de pontuação singular), quer enfrentando dogmas - não tinha fé em Deus (mas certamente Deus teve fé nele).

Para ele a escrita, enquanto forma de expressão do pensamento e de intervenção intelectual, foi instrumento, foi arma, foi agente provocador e plataforma de interrogação permanente do indivíduo e da sociedade.

Com a sua actividade cívica aliada à criação literária, cumpriu aquilo que é mais caro aos criadores e aos artistas – conseguiu com a sua obra fazer pensar os destinatários, perturbar os conformados, incomodar as consciências e aguçar a lucidez.

Deixa a Fundação José Saramago, à qual se dedicará a companheira e musa da sua vida, Pilar Del Rio, força inabalável que foi determinante na sua alma e na sua obra, a quem também prestamos aqui homenagem. Fundação José Saramago que assume, entre os seus objectivos principais, a defesa e a divulgação da literatura contemporânea, a defesa e a exigência de cumprimento da Carta dos Direitos Humanos e o cuidado do meio ambiente.

Enquanto escritor português, José Saramago deu um incontestável contributo para a afirmação e difusão da Língua Portuguesa, para a divulgação da Literatura Portuguesa e para a união do mundo lusófono. Embaixador da cultura portuguesa no mundo, a influência da sua obra estendeu-se a um amplo espectro de outras expressões artísticas - na ópera, no cinema, nas artes visuais, sublinhando a universalidade da sua linguagem.

A Literatura Portuguesa, as Literaturas em Português, com Saramago, adquiriram ressonância internacional e prestígio global, pela universalidade das questões que o Escritor agarra e reflecte com tenacidade e vigor, e pelo génio sísmico com que as dá a ler, a pensar, através da sua escrita.

Portugal homenageia hoje o homem, simples, sensível e corajoso;

Portugal celebra em Saramago, a sua humanidade, grandeza e universalidade;

Portugal orgulha-se do Escritor e engrandece-se com a sua obra, poliédrica, ímpar e seminal.

Portugal agradece, sentida e sinceramente, o encontro mágico de Saramago com a Literatura, e o lugar único e perene que José Saramago ocupará para sempre na Literatura e na Cultura do mundo.

Como escreveu ontem um amigo a Pilar, - Não há palavras. Saramago levou-as todas…

Obrigado José Saramago.

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Observação:
Eu estou a fazer uma página dedicada a José Saramago que será a minha singela homenagem.
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Para veres a página, quando estiver acabada, clica AQUI.