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segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Pastel de Tentúgal: A Herança das Freiras Doceiras | Um dos 21 Candidatos às 7 Maravilhas Gastronómicas | Life & Style
Fica o artigo que está no Life & Style do Publico.pt, em Gastronomia. Eu já conhecia o toda esta realidade, detalhes e factos.
Durante uns anos passei 15 dias por ano de férias de verão em Tentúgal. Tentúgal é uma povoação na Freguesia de Tentúgal. Esta freguesia, com uma área de cerca de 34 Km2, situa-se na margem direita do rio Mondego. Uma boa parte desta área é composta por campos de cultivo no vale do Mondego. Tentúgal é considerada uma autêntica "Vila Museu". Tem uma variedade espantosamente bela de monumentos. São muito conhecidas, pela sua importância histórica e cultural, a Torre do Relógio, A Igreja da Misericórdia, o Paço dos Condes de Tentúgal, os Solares, a Janelas Manuelinas.
Conheço a Tentúgal e arredores quase como as palmas das minhas mãos.
Todos os dias comia mais do que um Pastel de Tentúgal. Cheguei a comer uns 4 seguidos...
Sou tão "apaixonada" pelos Pastéis de Tentúgal que fiz questão de visitar a fábrica, mesmo no centro da aldeia, e vi tudo tal como descrito no artigo. Espero que os Pastéis de Tentúgal sejam considerados uma das "7 maravilhas gastronómicas"! JOÃO
21 candidatos, 7 maravilhas gastronómicas
A herança das freiras doceiras: Pastel de Tentúgal
Por Alexandra Prado Coelho
Uma massa mais fina que uma folha de papel, mulheres que a esticam até ela quase rasgar, um convento cheio de histórias. O que as freiras deixaram a Tentúgal foi mais do que um bolo, foi uma forma de sobrevivência. É com ele que começamos uma série sobre os 21 candidatos a maravilhas da gastronomia portuguesa.
A sala parece um pequeno ginásio. O chão está coberto com um colchão fino e um pano branco, imaculado. Gracinda faz lembrar uma professora de judo, movendo-se pelo espaço com passos ao mesmo tempo leves e firmes. Atira para o centro um grande pedaço de massa, que cai pesadamente. Depois, com gestos decididos, a mulher vestida de branco começa a dar puxões na massa pega numa ponta e estica-a, como se estivesse a fazer uma cama; depois outra ponta; e outra; e outra. A massa faz um balão no ar e vem assentar levemente sobre o pano branco.
Se alguma vez se interrogaram como é que é possível os pastéis de Tentúgal terem uma massa tão fina e estaladiça, a resposta está aqui. Durante algum tempo, Gracinda continua o seu ritual, e se, de tão esticada, a massa ameaça abrir um buraco, ela atira-lhe imediatamente com um dos panos que tem ao ombro para travar o rasgão. No final, o resultado terá 0,05 milímetros será mais fino que uma folha de papel vegetal.
Temos alguma dificuldade em imaginar como o fariam as freiras no convento de Tentúgal. Teriam também salas enormes, panos no chão, e andariam assim, em coreografias de judocas? Tanto não sabemos. Mas Olga Cavaleiro, da Confraria da Doçaria Conventual de Tentúgal, conhece muito desta história do doce que está entre os 21 finalistas da eleição para as sete maravilhas da gastronomia portuguesa, cujos resultados serão anunciados no início de Setembro. "O pastel nasceu há cerca de quatro séculos, aqui, no Convento da Nossa Senhora da Natividade, das freiras carmelitas. Era usado para dar às crianças doentes. Nesse tempo, o açúcar funcionava como medicamento em situações de carência alimentar."
Os registos mostram que, sobretudo a partir do século XVII, as freiras encomendam grandes quantidades de farinha. E no inventário da cozinha aparece também a referência a dois alguidares para lavar os pés seria, talvez, porque já então andavam descalças sobre a estopa onde esticavam a massa.
Mas, em 1834, com a extinção da ordens religiosas, o pastel torna-se para as freiras uma forma de sobrevivência. De repente, foi proibida a entrada de noviças e todas as propriedades e rendas reverteram para o Estado. "Para colmatarem a falta de dinheiro, elas passaram a vender pastéis numa das rodas do convento (havia outra para a troca de mercearias, e a das crianças abandonadas). Nessa altura, tinham formato de palito e não tinham ainda amêndoa no recheio".
Conta-se e a literatura confirma que os pastéis de Tentúgal eram já procurados por quem vinha de Coimbra. Entre eles, claro, muitos poetas e estudantes. Na sua Carta a Manuel, António Nobre (1867-1900) relata a esperança de encontrar um bilhetinho da amada escondido entre as folhas finas do pastel. "Tentugal toda a rir de cazas brancas! A linda aldeia! Venho cá todos os meses E contrariado vou de todas essas vezes. Venho ao convento vizitar a linda freira Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira... Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei Que ele trará dentro um bilhete, isto sonhei: Assim o pastellinho, ó ventura sonhada! Tem de recheio o coração da minha amada. Abro o envelope ideal. Vamos a ver... Traz? Não! Regresso a Coimbra só com o meu coração".
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