Baptista Bastos sobre Cavaco Silva
«O dr. Cavaco consumiu vinte minutos, no Centro Cultural de Belém, a esclarecer os portugueses que não havia português como ele. Os portugueses, diminuídos com a presunção e esmagados pela soberba, escutaram a criatura de olhos arregalados. Elogio em boca própria é vitupério, mas o dr. Cavaco ignora essa verdade axiomática, como, aliás, ignora um número quase infindável de coisas.
O discurso, além de tolo, era um arrazoado de banalidades, redigido num idioma de eguariço. São conhecidas as amargas dificuldades que aquele senhor demonstra em expressar-se com exactidão. Mas, desta vez, o assunto atingiu as raias da nossa indignação. Segundo ele de si próprio diz, tem sido um estadista exemplar, repleto de êxitos políticos e de realizações ímpares. E acrescentou que, moralmente, é inatacável.
O passado dele não o recomenda. Infelizmente. Foi um dos piores primeiros-ministros, depois do 25 de Abril. Recebeu, de Bruxelas, oceanos de dinheiro e esbanjou-os nas futilidades de regime que, habitualmente, são para "encher o olho" e cuja utilidade é duvidosa.
Preferiu o betão ao desenvolvimento harmonioso do nosso estrato educacional; desprezou a memória colectiva como projecto ideológico, nisso associando-se ao ideário da senhora Tatcher e do senhor Regan; incentivou, desbragadamente, o culto da juventude pela juventude, característica das doutrinas fascistas; crispou a sociedade portuguesa com uma cultura de espeque e atrabiliária e, não o esqueçamos nunca, recusou a pensão de sangue à viúva de Salgueiro Maia, um dos mais abnegados heróis de Abril, atribuindo outras a agentes da PIDE, "por serviços relevantes à pátria." A lista de anomalias é medonha.
Como Presidente é um homem indeciso, cheio de fragilidades e de ressentimentos, com a ausência de grandeza exigida pela função. O caso, sinistro, das "escutas a Belém" é um dos episódios mais vis da história da II República. Sobre o caso escrevi, no Negócios, o que tinha de escrever. Mas não esqueço o manobrismo nem a desvergonha, minimizados por uma Imprensa minada por simpatizantes de jornalismos e por estipendiados inquietantes. Em qualquer país do mundo, seriamente democrático, o dr. Cavaco teria sido corrido a sete pés.
O lastro de opróbrio, de fiasco e de humilhação que tem deixado atrás de si, chega para acreditar que as forças que o sustentam, a manipulação a que os cidadãos têm sido sujeitos, é da ordem da mancha histórica. E os panegíricos que lhe tecem são ultrajantes para aqueles que o antecederam em Belém e ferem a nossa elementar decência.
É este homem de poucas qualidades que, no Centro Cultural de Belém, teve o descoco de se apresentar como símbolo de virtudes e sinónimo de impolutabilidade. É este homem, que as circunstâncias determinadas pelas torções da História alisaram um caminho sem pedras e empurraram para um destino que não merece. Triste Ré-pública, nas mãos de gente que a não ama, que a não desenvolve, que a não resguarda e a não protege!
Estamos a assistir ao fim de muitas esperanças, de muitos sonhos acalentados, e à traição imposta a gerações de homens e de mulheres. É gente deste jaez e estilo que corrói os alicerces intelectuais, políticos e morais de uma democracia que, cada vez mais, existe, apenas, na superfície. O estado a que chegámos é, substancialmente, da responsabilidade deste cavalheiro e de outros como ele.
Como é possível que, estando o País de pantanas, o homem que se apresenta como candidato ao mais alto emprego do Estado, não tenha, nem agora nem antes, actuado com o poder de que dispõe? Como é possível? Há outros problemas que se põem: foi o dr. Cavaco que escreveu o discurso? Se foi, a sua conhecida mediocridade pode ser atenuante. Se não foi, há alguém, em Belém, que o quer tramar.
Um amigo meu, fundador de PSD, antigo companheiro de Sá Carneiro eleitor omnívoro de literatura de todos os géneros e projecções, que me dizia:
"Como é que você quer que isto se endireite se o dr. Cavaco e a maioria dos políticos no activo diz 'competividade' em vez de 'competitividade' e julga que o Padre António Vieira é um pároco de qualquer igreja?"
Pessoalmente, não quero nada. Mas desejava, ardentemente desejava, ter um Presidente da República que, pelo menos, soubesse quantos cantos tem "Os Lusíadas."»
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Batista Bastos sobre Cavaco Silva
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quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Artigo de Baptista Bastos: «A Indecência Como Factor Político»
Sempre gostei muito de Baptista-Bastos e da sua escrita, em livros e em artigos de opinião, das suas intervenções na televisão e na rádio...Fica um desses artigos de opinião, do Diário de Notícias, em que Baptista Bastos escreve sobre o PSD e sem "papas" nos dedos/língua...
JOÃO
Grande Baptista-Bastos!
Uma leitura a não perder!JOÃO
Um vistoso grupo de militantes graduados do PSD tem desancado, sincronizadamente, os aumentos de impostos. De repente, Manuela Ferreira Leite, Marques Mendes, Marcelo Rebelo de Sousa e quejandos, movidos por irresistível estremecimento de bondade, fizeram-se paladinos dos desfavorecidos. E as frases utilizadas, para se demarcarem das decisões de Passos Coelho, poderiam, acaso, ser subscritas pelos mais tenazes antagonistas de Esquerda.
Mas as razões destas acerbas críticas não são tão ocultas quanto isso. Aqueles, e outros mais, detestam o presidente do PSD, desde o dia em que venceu as eleições internas, e estremeceram de horror quando derrotou o PS e se tornou primeiro-ministro. O ajuste de contas dos ressentidos pertence aos domínios da arqueologia do ódio, e ódio velho não cansa. O pretexto para estas sarrafadas nos lombos de Passos Coelho é a política fiscal. Podia ser outro, mas é este porque corre ao lado da antipatia popular. Nem um dos críticos sente um pingo de emoção pelas angústias e pesares da plebe. O oportunismo leva-os a esta falta de pudor.
Imediatamente a seguir, Passos Coelho, que é nhurro e senhor do seu nariz, informou que vêm aí mais impostos. Foi no encerramento da Universidade de Verão do PSD, e fê-lo com desconcertante frieza, como se a afirmação resultasse de uma inevitabilidade. Não é. Nem as decisões do Governo sobre fiscalidade constituem a única via para a solução dos problemas gerais.
Somos o pião das nicas nestas jogadas indecentes. A teimosia de uns e as pequenas vinganças pessoais de outros, desregradas e vãs, não constituem sinais de grandeza, mas sim anúncios de martírio. E este Governo, com o vício imaginativo segundo o qual a maioria permite tudo, está a cavar a própria sepultura, arrastando-nos consigo.
As quezílias deles, são entre eles. Porém, somos atingidos com uma violência inaudita. O cerco a Passos Coelho, feito pelos seus "companheiros" com verdete, não atenua as nossas desgraças. Ferreira Leite, Mendes, Marcelo e assemelhados, quando estiveram no poder, fizeram o mesmo ou pior. Possuo uma lista inesquecível das malandrices então praticadas. Está-lhes na massa do sangue, na ideologia e na prática política. Nenhum é melhor do que o outro, porque todos nasceram de idênticas malformações. Perdeu-se o sentido de Estado, no que a expressão significa de missão e de entrega. Os laços sociais, estrutura fundamental da sociedade, dissolveram-se, talvez irremediavelmente. Considera-se o ser humano não como participante, mas como o oposto, o antagonista, o inimigo. A nossa cultura induz-nos a caminhar para o que está condenado, ignorando a imanência das verdades e a necessidade de se descobrir outro paradigma. Esta gente não está cá para ajudar ninguém. Como se tem visto.
Mas as razões destas acerbas críticas não são tão ocultas quanto isso. Aqueles, e outros mais, detestam o presidente do PSD, desde o dia em que venceu as eleições internas, e estremeceram de horror quando derrotou o PS e se tornou primeiro-ministro. O ajuste de contas dos ressentidos pertence aos domínios da arqueologia do ódio, e ódio velho não cansa. O pretexto para estas sarrafadas nos lombos de Passos Coelho é a política fiscal. Podia ser outro, mas é este porque corre ao lado da antipatia popular. Nem um dos críticos sente um pingo de emoção pelas angústias e pesares da plebe. O oportunismo leva-os a esta falta de pudor.
Imediatamente a seguir, Passos Coelho, que é nhurro e senhor do seu nariz, informou que vêm aí mais impostos. Foi no encerramento da Universidade de Verão do PSD, e fê-lo com desconcertante frieza, como se a afirmação resultasse de uma inevitabilidade. Não é. Nem as decisões do Governo sobre fiscalidade constituem a única via para a solução dos problemas gerais.
Somos o pião das nicas nestas jogadas indecentes. A teimosia de uns e as pequenas vinganças pessoais de outros, desregradas e vãs, não constituem sinais de grandeza, mas sim anúncios de martírio. E este Governo, com o vício imaginativo segundo o qual a maioria permite tudo, está a cavar a própria sepultura, arrastando-nos consigo.
As quezílias deles, são entre eles. Porém, somos atingidos com uma violência inaudita. O cerco a Passos Coelho, feito pelos seus "companheiros" com verdete, não atenua as nossas desgraças. Ferreira Leite, Mendes, Marcelo e assemelhados, quando estiveram no poder, fizeram o mesmo ou pior. Possuo uma lista inesquecível das malandrices então praticadas. Está-lhes na massa do sangue, na ideologia e na prática política. Nenhum é melhor do que o outro, porque todos nasceram de idênticas malformações. Perdeu-se o sentido de Estado, no que a expressão significa de missão e de entrega. Os laços sociais, estrutura fundamental da sociedade, dissolveram-se, talvez irremediavelmente. Considera-se o ser humano não como participante, mas como o oposto, o antagonista, o inimigo. A nossa cultura induz-nos a caminhar para o que está condenado, ignorando a imanência das verdades e a necessidade de se descobrir outro paradigma. Esta gente não está cá para ajudar ninguém. Como se tem visto.
sábado, 16 de abril de 2011
Artigo de Baptista Bastos: «Eles Não Gostam De Nós. Só Gostam Deles Próprios»
Sempre gostei muito de Baptista Bastos e da sua escrita, em livros e em artigos de opinião, das suas intervenções na televisão e na rádio, das suas conversas de café... Assisti a algumas em que eu estava presente com o meu pai.Fica um desses artigos de opinião em que Baptista Bastos escreve sobre o PSD e das suas diferenças entre os vários grupos existentes dentro do partido, sobre Passos Coelho e do "tiro no pé" chamado Fernando Nobre e de várias outras realidades da actualidade portuguesa.
Uma leitura a não perder!
JOÃO
Eles não gostam de nós. Só gostam deles próprios
15 Abril2011 | 12:42Baptista Bastos - b.bastos@netcabo.pt
Pedro Passos Coelho caminha em terreno armadilhado. Escrevi, há meses, nesta coluna. Devia ter acrescentado: armadilhado pelos próprios "companheiros."
Ele tem pretendido "reconciliar" o partido, mas o PSD é absolutamente "irreconciliável." Nem Francisco Sá Carneiro conseguia apaziguar as fúrias dos diferentes e múltiplos grupos que, entre si, se digladiavam, numa ânsia de poder que chega a ser doentia. Passos Coelho não é, propriamente, um bem-amado, e a circunstância de ter obtido uma vitória esmagadora sobre os seus adversários, acirrou os ânimos ainda mais.
Ele bem quer ser simpático e plural, mas sacodem-no, com destempero e, até, um certo desdém. Convidou vários "notáveis" para integrarem as listas parlamentares. Até agora, esquivaram-se todos: Manuela Ferreira Leite, António Capucho, Luís Filipe Menezes, Marques Mendes. A procissão de negas ainda vai no adro. Mas entende-se a extensão da conspiração. Pedro Passos Coelho, notoriamente, anda muito mal aconselhado. O que faz com que os vexames por que passa sejam cada vez mais desagradáveis.
O último tiro no pé foi o convite, aceito, a Fernando Nobre. Tenho estima pessoal por este homem que dedicou parte substancial da vida a actos de humanismo e de entrega. Porém, ele não será uma mais-valia para o PSD. Primeiro, porque se desacreditou, como se regista pelos protestos (alguns bem soezes e ordinários, a merecer bengaladas redentoras) que inundam os jornais, as rádios, as televisões e os blogues. Apesar de tudo, Nobre não merecia estas afrontas. Segundo, porque os votos obtidos nas eleições para a Presidência, não são transferíveis. O êxito dele correspondeu a um momento histórico particularmente confuso e delicado.
A estratégia de Passos corresponde a um disparate pessoal e a um desastre político, facilmente adivinhável. Ele tem de perceber que, no próprio PSD, o querem afastar. Os seus inimigos não estão, somente, cá fora; talvez, até, estejam no "interior" os mais raivosos e implacáveis. A escolha de Fernando Nobre, que gerou grande desassossego naquele partido, constitui uma precipitação indesculpável, um erro de avaliação (fatal num político) e um tropeção aproveitado por quem o detesta. Quem o aconselhou? Uma decisão desta natureza não nasce de uma congeminação individual. E quem o aconselhou está a prejudicá-lo seriamente.
E, agora, porque motivo, quais as razões secretas que levaram Fernando Nobre a concordar com o convite, duas semanas depois de ter declarado nada querer de partidos, de lugares, de honrarias? As pessoas que nele acreditaram merecem, acaso, uma explicação mais plausível do que aquela, atabalhoada, que, em seu nome, formulou o porta-voz do movimento que desencadeou. Segundo este, o dr. Nobre é um homem livre e pode escolher os momentos e as circunstâncias que o impelem a tomar esta ou aquela atitude. Aliás, acrescentou, em ocasiões anteriores, apoiou outros partidos e candidatos a lugares políticos. O porta-voz enterrou, ainda mais, o dr. Fernando Nobre, porque já ninguém acredita na bondade do acto.
Há quem afirme que deseja ir para o Parlamento, a fim de "reformá-lo por dentro." Como não pode proceder a tão titânico esforço, apenas como deputado, dizem que o contrato com Pedro Passos Coelho só é válido se for eleito presidente da Assembleia da República. O homem da ética, da lisura de hábitos e da honra no exercício da política, sai-se com esta! Será verdade? Só o visado poderá esclarecer, devidamente, este imbróglio. Deve-o não só aos que o apoiaram como àqueles milhares de portugueses que simpatizaram com o seu projecto. O homem foi ingénuo e caiu numa esparrela?
A vida portuguesa está repleta de surpresas e de inquietações. Bem basta o que nos chega, de supetão, e ainda levamos mais nos lombos. O meu amigo Otelo Saraiva de Carvalho admitiu o impensável: se soubesse ao que "isto" chegou "não teria feito o 25 de Abril", ao mesmo tempo que admitia ser possível, apenas com oitocentos homens, "realizar um outro 25 de Abril." Para essa revolta bastava que continuassem a chatear os militares. As declarações do meu amigo mereciam uma discussão mais alargada. Com tudo o que elas comportam de gravidade e, até, de angústia, não mereciam ser esquecidas e atiradas para o caixote das inutilidades.
Por outro lado, os prestamistas do FMI já cá estão (creio que já cá estavam) e estudam o processo de ordenar ao Governo o que o Governo deve fazer. Indicam sábios economistas que vamos passar pelas passas do Algarve. Já o estávamos. De uma forma ou de outra a "prosperidade" nunca tocou, abertamente, na nossa porta. E, quando a Europa nos encheu de dinheiro, o dr. Cavaco, que mandava no País (não o esqueçamos nunca), esbanjou-o com futilidades. Não tinha, não tem, nunca terá o estofo de um estadista. E pagámos caro o poder que lhe foi dado pelos grandes interesses económico-financeiros.
A impunidade, em Portugal, continua impante e firme. Como chegámos a esta situação de esmoler? Quem nos enganou e nos traiu? Os mesmo que se preparar para voltar ao poder com outras vestes. Contudo, as coisas estão muito vagas, muito imprecisas, e talvez a revolta dos eleitores deixe de estar anestesiada. Talvez. A verdade é que a situação pestilenta em que sobrenadamos não pode continuar mais.
Ele bem quer ser simpático e plural, mas sacodem-no, com destempero e, até, um certo desdém. Convidou vários "notáveis" para integrarem as listas parlamentares. Até agora, esquivaram-se todos: Manuela Ferreira Leite, António Capucho, Luís Filipe Menezes, Marques Mendes. A procissão de negas ainda vai no adro. Mas entende-se a extensão da conspiração. Pedro Passos Coelho, notoriamente, anda muito mal aconselhado. O que faz com que os vexames por que passa sejam cada vez mais desagradáveis.
O último tiro no pé foi o convite, aceito, a Fernando Nobre. Tenho estima pessoal por este homem que dedicou parte substancial da vida a actos de humanismo e de entrega. Porém, ele não será uma mais-valia para o PSD. Primeiro, porque se desacreditou, como se regista pelos protestos (alguns bem soezes e ordinários, a merecer bengaladas redentoras) que inundam os jornais, as rádios, as televisões e os blogues. Apesar de tudo, Nobre não merecia estas afrontas. Segundo, porque os votos obtidos nas eleições para a Presidência, não são transferíveis. O êxito dele correspondeu a um momento histórico particularmente confuso e delicado.
A estratégia de Passos corresponde a um disparate pessoal e a um desastre político, facilmente adivinhável. Ele tem de perceber que, no próprio PSD, o querem afastar. Os seus inimigos não estão, somente, cá fora; talvez, até, estejam no "interior" os mais raivosos e implacáveis. A escolha de Fernando Nobre, que gerou grande desassossego naquele partido, constitui uma precipitação indesculpável, um erro de avaliação (fatal num político) e um tropeção aproveitado por quem o detesta. Quem o aconselhou? Uma decisão desta natureza não nasce de uma congeminação individual. E quem o aconselhou está a prejudicá-lo seriamente.
E, agora, porque motivo, quais as razões secretas que levaram Fernando Nobre a concordar com o convite, duas semanas depois de ter declarado nada querer de partidos, de lugares, de honrarias? As pessoas que nele acreditaram merecem, acaso, uma explicação mais plausível do que aquela, atabalhoada, que, em seu nome, formulou o porta-voz do movimento que desencadeou. Segundo este, o dr. Nobre é um homem livre e pode escolher os momentos e as circunstâncias que o impelem a tomar esta ou aquela atitude. Aliás, acrescentou, em ocasiões anteriores, apoiou outros partidos e candidatos a lugares políticos. O porta-voz enterrou, ainda mais, o dr. Fernando Nobre, porque já ninguém acredita na bondade do acto.
Há quem afirme que deseja ir para o Parlamento, a fim de "reformá-lo por dentro." Como não pode proceder a tão titânico esforço, apenas como deputado, dizem que o contrato com Pedro Passos Coelho só é válido se for eleito presidente da Assembleia da República. O homem da ética, da lisura de hábitos e da honra no exercício da política, sai-se com esta! Será verdade? Só o visado poderá esclarecer, devidamente, este imbróglio. Deve-o não só aos que o apoiaram como àqueles milhares de portugueses que simpatizaram com o seu projecto. O homem foi ingénuo e caiu numa esparrela?
A vida portuguesa está repleta de surpresas e de inquietações. Bem basta o que nos chega, de supetão, e ainda levamos mais nos lombos. O meu amigo Otelo Saraiva de Carvalho admitiu o impensável: se soubesse ao que "isto" chegou "não teria feito o 25 de Abril", ao mesmo tempo que admitia ser possível, apenas com oitocentos homens, "realizar um outro 25 de Abril." Para essa revolta bastava que continuassem a chatear os militares. As declarações do meu amigo mereciam uma discussão mais alargada. Com tudo o que elas comportam de gravidade e, até, de angústia, não mereciam ser esquecidas e atiradas para o caixote das inutilidades.
Por outro lado, os prestamistas do FMI já cá estão (creio que já cá estavam) e estudam o processo de ordenar ao Governo o que o Governo deve fazer. Indicam sábios economistas que vamos passar pelas passas do Algarve. Já o estávamos. De uma forma ou de outra a "prosperidade" nunca tocou, abertamente, na nossa porta. E, quando a Europa nos encheu de dinheiro, o dr. Cavaco, que mandava no País (não o esqueçamos nunca), esbanjou-o com futilidades. Não tinha, não tem, nunca terá o estofo de um estadista. E pagámos caro o poder que lhe foi dado pelos grandes interesses económico-financeiros.
A impunidade, em Portugal, continua impante e firme. Como chegámos a esta situação de esmoler? Quem nos enganou e nos traiu? Os mesmo que se preparar para voltar ao poder com outras vestes. Contudo, as coisas estão muito vagas, muito imprecisas, e talvez a revolta dos eleitores deixe de estar anestesiada. Talvez. A verdade é que a situação pestilenta em que sobrenadamos não pode continuar mais.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
CRISE | Desemprego | Pobreza - "A Lista de Cúmplices desta Barbaridade é Enorme"
Se Sócrates disse que o Mundo mudou em 2 semanas, eu digo que Portugal deu uma volta de 360º em 24 horas, depois de já ter dado, anteriormente, mil e uma voltas de 360º.
Desta vez os vários “Mini-PEC” dentro do próprio PEC são avassaladores. Vão desde os aumentos dos transportes, redução da prestação de cuidados de saúde, redução de direitos dos trabalhadores, redução de ajudas aos desempregados, redução do crescimento económico, aumentos dos impostos de selo para os que utilizam créditos, aumentos de todos os tipos de impostos...
Enfim, estamos completamente "lixados"! Os detentores das grandes fortunas vão ver os seus bens a continuarem a crescer e os que vivem do trabalho vão continuar a ver as suas posses a baixar e baixar... algumas abaixo do nível que separa uma vida decente e começa a pobreza declarada... Quanto aos desempregados, esses, coitados, além da fama que têm de não quererem trabalhar, os que ainda não perderam tudo, vão chegar à miséria absoluta ao ponto de, se não tiverem quem os ajudar, perderem, também, a saúde mental.
Eu já escrevi aqui que o Primeiro-Ministro tem mentido constantemente aos Portugueses, não quer assumir as culpas que tem tido na má governação, nem nas más políticas escolhidas, nem nas más práticas usadas para nos enganar e nem quer admitir, sequer, alguma vez pedir desculpas aos portugueses pela situação grave a que chegámos.
Mas há mais culpados pelo estado a que chegámos.
Fica a Frase do Dia.
JOÃO
Desta vez os vários “Mini-PEC” dentro do próprio PEC são avassaladores. Vão desde os aumentos dos transportes, redução da prestação de cuidados de saúde, redução de direitos dos trabalhadores, redução de ajudas aos desempregados, redução do crescimento económico, aumentos dos impostos de selo para os que utilizam créditos, aumentos de todos os tipos de impostos...
Enfim, estamos completamente "lixados"! Os detentores das grandes fortunas vão ver os seus bens a continuarem a crescer e os que vivem do trabalho vão continuar a ver as suas posses a baixar e baixar... algumas abaixo do nível que separa uma vida decente e começa a pobreza declarada... Quanto aos desempregados, esses, coitados, além da fama que têm de não quererem trabalhar, os que ainda não perderam tudo, vão chegar à miséria absoluta ao ponto de, se não tiverem quem os ajudar, perderem, também, a saúde mental.
Eu já escrevi aqui que o Primeiro-Ministro tem mentido constantemente aos Portugueses, não quer assumir as culpas que tem tido na má governação, nem nas más políticas escolhidas, nem nas más práticas usadas para nos enganar e nem quer admitir, sequer, alguma vez pedir desculpas aos portugueses pela situação grave a que chegámos.
Mas há mais culpados pelo estado a que chegámos.
Fica a Frase do Dia.
JOÃO
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A FRASE
"A lista de cúmplices desta barbaridade é enorme. Andam todos por aí. Guterres trata dos famintos do Terceiro Mundo; Barroso, dos "egocratas" de barriga cheia; os economistas que nos afundaram tratam da vidinha, com desenvolta disposição. Nenhum é responsável do crime; e passam ao lado da insatisfação e da decepção permanentes, como cães por vinha vindimada"
"A lista de cúmplices desta barbaridade é enorme. Andam todos por aí. Guterres trata dos famintos do Terceiro Mundo; Barroso, dos "egocratas" de barriga cheia; os economistas que nos afundaram tratam da vidinha, com desenvolta disposição. Nenhum é responsável do crime; e passam ao lado da insatisfação e da decepção permanentes, como cães por vinha vindimada"
Baptista-Bastos, "Diário de Notícias", 26-05-2010
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quarta-feira, 19 de maio de 2010
O Governo é um Descalabro - Para Sócrates só não mudaram Judite de Sousa e José Alberto Carvalho
Escolhi estas frases por razões diferentes: a frase de "O Inimigo Público", para nos rirmos um pouco e, quem viu ontem a entrevista do José Sócrates na RTP1, percebe a razão. Durante toda a entrevista ele praticamente só referia que a Europa mudou em 2 dias... Como se tal fosse assim! Os problemas da Europa e do Mundo não mudaram em dois dias. Sócrates é que acabou com a sua teimosia... apesar de recusar pedir desculpas aos Portugueses!...Como a entrevista foi feita pela Judite de Sousa e o José Alberto carvalho, os mesmos que o entrevistaram anteriormente, é óbvio o humor contido na frase, cujo artigo completo podes ver se clicares aqui.
E, se não estamos pior, vale-nos a vigilância apertada dos partidos à esquerda do PS, com representação parlamentar.
JOÃO
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Para Sócrates, tudo mudou excepto
Judite de Sousa e José Alberto Carvalho
Mário Botequilha
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A FRASE"O Governo é um descalabro, e o PS um partido enfermo pelo poder. Há uma corrosão acentuada na sociedade portuguesa. A impostura adquiriu carta de alforria: ninguém é culpado, ninguém é responsabilizado. Quem nos acode?"
Baptista-Bastos, escritor, "Diário de Notícias", 19-05-2010
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Meditação sobre os suicidas da France Telecom: "Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?"
Olá a todos!
Nest blog já está um comentário sobre os suicidas de France Telecom.
Eu queria responder a esse comentário.
Mas não o faria com tanta eloquência como Baptista Bastos o faz.
Deixo pois um dos artigos deste autor.
Sara Antunes
Baptista Bastos
Nest blog já está um comentário sobre os suicidas de France Telecom.
Eu queria responder a esse comentário.
Mas não o faria com tanta eloquência como Baptista Bastos o faz.
Deixo pois um dos artigos deste autor.
Sara Antunes

Baptista BastosMeditação sobre os suicidas da France Telecom
"Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?" As perguntas, tornadas um pungente requisitório, foram, há dias, formuladas por um trabalhador da France Telecom, numa manifestação contra o processo de "reestruturação" da empresa, cujos resultados têm conduzido à barbárie. Vinte e quatro trabalhadores suicidaram-se, nos últimos dezanove meses, e mais treze foram socorridos quando se preparavam para pôr fim à vida.
Em nome da "competitividade" e em obediência às leis do mercado, um "gestor", Louis-Pierre Wenes, procedeu, a partir de 2005 (ele entrara na empresa em 2002), adjuvado por Didier Lombard, à "modernização" da empresa, o terceiro operador de telemóveis da Europa e o primeiro fornecedor de acesso à Internet.
Em nome da "competitividade" e em obediência às leis do mercado, um "gestor", Louis-Pierre Wenes, procedeu, a partir de 2005 (ele entrara na empresa em 2002), adjuvado por Didier Lombard, à "modernização" da empresa, o terceiro operador de telemóveis da Europa e o primeiro fornecedor de acesso à Internet.
A brutalidade das decisões não olhou a meios para justificar os fins. Diz a France Press que "o plano redundou num controlo cerrado dos funcionários, dos tempos de pausa, uma pressão insuportável por ganhos de produtividade e desumanização nas relações laborais. Os comunicados dos sindicatos sublinham a incerteza organizada sobre a permanência de cada posto de trabalho, mudanças forçadas de funções, pressões insidiosas para que os trabalhadores se demitissem ou aceitassem despromoções, tentando fazê-los responsabilizar-se por essas novas situações."
O "mercado", o "neoliberalismo" e a globalização atingiram novos patamares de infâmia. Em Portugal desconhece-se a estatística de suicídios causados por compulsões semelhantes, e o facto de estarmos à beira dos setecentos mil desempregados deveria preocupar, seriamente, aqueles que nos governam. A desumanização que se regista no mundo do trabalho explica-se pelo facto de o "homem de organização", quero dizer: o "gestor", não pode permitir-se ter princípios ou escrúpulos: deve, isso sim ter reflexos.
O "mercado", o "neoliberalismo" e a globalização atingiram novos patamares de infâmia. Em Portugal desconhece-se a estatística de suicídios causados por compulsões semelhantes, e o facto de estarmos à beira dos setecentos mil desempregados deveria preocupar, seriamente, aqueles que nos governam. A desumanização que se regista no mundo do trabalho explica-se pelo facto de o "homem de organização", quero dizer: o "gestor", não pode permitir-se ter princípios ou escrúpulos: deve, isso sim ter reflexos.
A degradação da vida empresarial resulta dessa cartografia de horrores que consiste nos objectivos a atingir, nas etapas que se tem de percorrer, e dos lucros que terão de ser rápidos e vultosos. O "gestor" é muitíssimo bem pago para ser um cão-de-fila. Um universo sem paixões, gelado, uma mistura de indiferença humana com uma selvajaria abstracta.
"Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?" As dramáticas perguntas adquirem um novo relevo, quando se sabe que as "soluções" aplicadas pelos tais "gestores" revelam-se ineficazes e conduzem as empresas, mais tarde ou mais cedo, à falência. À falência económica e financeira, porque a falência moral já habita no corpo de quem as dirige.
A "organização", o "grupo", correspondem a esse capitalismo predador, que mantém uma "democracia de superfície", feroz e impositiva, que tem aniquilado sindicatos, partidos progressistas, organizações cristãs recalcitrantes, homens e mulheres, sobrepondo uma cultura que provoca a renúncia de pensar. O poder económico a sobrepujar o poder político. Ainda há semanas, o eng.º Francisco Van Zeller, presidente da CIP, se opunha, veementemente, à casualidade de o PS estabelecer acordos, parlamentares ou outros, com o Bloco de Esquerda. A sobreposição chega a ser aberrante. E o desprezo pela democracia, mesmo tão fanada como a portuguesa, associa-se a um postulado segundo o qual estaríamos no fim das ideologias. É verdade que o PSD nunca foi "social-democrata" (quando muito, conservador-liberal), e o PS foge do socialismo como Satanás da cruz (salvo seja). Esta confusa apropriação indevida de nomes causou estragos irreparáveis na "democracia" que por aí está.
O panorama nacional é assustador. Salvam-se os bancos, em nome não se sabe muito bem de quê e de quem, e destroem-se vidas. O tema da emancipação da humanidade não perdeu prestígio nem poder. As grandes questões do trabalho, do capitalismo, das novas relações sociais, do desemprego e da subida da miséria e da fome são omissos nos chamados órgãos de informação. No caso português, a ausência destes temas obedece a indicações e a ordenanças. As mais radicais das ideias reaccionárias afloram em numerosos artigos, comentários e debates. É a "democracia de superfície" em toda a sua expressão. Repare-se que o caso da France Telecom mereceu medíocres chamadas de primeira página, e notícias reduzidíssimas no interior dos jornais. E este é um assunto que, pela sua natureza trágica e pela dimensão social que exprime, deveria adquirir enunciações mais amplas.
Há algo de dissolução rápida nas nossas sociedades. Quando os laços relacionais são tão abruptamente cortados, como na France Telecom, temos de perceber que o problema não é isolado. E que a ameaça começou a constituir como perigo imediato. Nomeemos os problemas e saibamos enfrentar os riscos decorrentes. A Imprensa e os jornalistas honrados têm uma palavra a dizer. Não será a última mas é, certamente, a mais importante. Se eu lhes merecer, contem comigo.
"Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?" As dramáticas perguntas adquirem um novo relevo, quando se sabe que as "soluções" aplicadas pelos tais "gestores" revelam-se ineficazes e conduzem as empresas, mais tarde ou mais cedo, à falência. À falência económica e financeira, porque a falência moral já habita no corpo de quem as dirige.
A "organização", o "grupo", correspondem a esse capitalismo predador, que mantém uma "democracia de superfície", feroz e impositiva, que tem aniquilado sindicatos, partidos progressistas, organizações cristãs recalcitrantes, homens e mulheres, sobrepondo uma cultura que provoca a renúncia de pensar. O poder económico a sobrepujar o poder político. Ainda há semanas, o eng.º Francisco Van Zeller, presidente da CIP, se opunha, veementemente, à casualidade de o PS estabelecer acordos, parlamentares ou outros, com o Bloco de Esquerda. A sobreposição chega a ser aberrante. E o desprezo pela democracia, mesmo tão fanada como a portuguesa, associa-se a um postulado segundo o qual estaríamos no fim das ideologias. É verdade que o PSD nunca foi "social-democrata" (quando muito, conservador-liberal), e o PS foge do socialismo como Satanás da cruz (salvo seja). Esta confusa apropriação indevida de nomes causou estragos irreparáveis na "democracia" que por aí está.
O panorama nacional é assustador. Salvam-se os bancos, em nome não se sabe muito bem de quê e de quem, e destroem-se vidas. O tema da emancipação da humanidade não perdeu prestígio nem poder. As grandes questões do trabalho, do capitalismo, das novas relações sociais, do desemprego e da subida da miséria e da fome são omissos nos chamados órgãos de informação. No caso português, a ausência destes temas obedece a indicações e a ordenanças. As mais radicais das ideias reaccionárias afloram em numerosos artigos, comentários e debates. É a "democracia de superfície" em toda a sua expressão. Repare-se que o caso da France Telecom mereceu medíocres chamadas de primeira página, e notícias reduzidíssimas no interior dos jornais. E este é um assunto que, pela sua natureza trágica e pela dimensão social que exprime, deveria adquirir enunciações mais amplas.
Há algo de dissolução rápida nas nossas sociedades. Quando os laços relacionais são tão abruptamente cortados, como na France Telecom, temos de perceber que o problema não é isolado. E que a ameaça começou a constituir como perigo imediato. Nomeemos os problemas e saibamos enfrentar os riscos decorrentes. A Imprensa e os jornalistas honrados têm uma palavra a dizer. Não será a última mas é, certamente, a mais importante. Se eu lhes merecer, contem comigo.
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