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quarta-feira, 3 de março de 2010

Pela Família Sem Ser Contra Ninguém - Artigo de Mariana Avelãs (sobre a Manifestação Lisboeta pela “Família Verdadeira”)

Mais um excelente artigo de opinião sobre a Manifestação Lisboeta pela “Família Verdadeira”.

Para veres o que neste Blog já foi colocado sobre o tema, clica aqui.

JOÃO

PELA FAMÍLIA SEM SER CONTRA NINGUÉM
Terça-Feira, 2 de Março de 2010

No dia 20, ao som improvável de um hino gay, a Plataforma Cidadania e Casamento, com o apoio do PNR, organizou uma manifestação que juntou em Lisboa uns poucos milhares de pessoas, número muito aquém dos 90 mil subscritores da petição a exigir o referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O lado mais negro desta manifestação é o seu próprio propósito: quem se mobiliza para exigir a negação de direitos a outrem não está a lutar por nada, mas contra um grupo de pessoas. Isto é óbvio, e os cartazes de ódio do PNR, bem rodeados por uma dezena de cabeças rapadas sedentos de violência, bastariam para o provar. Mas terão todos os manifestantes, desde as velhinhas que se arrastavam de crucifixo na mão aos jovens com ar bem-intencionado, consciência de que o ódio que destilam não cai só sobre os homossexuais, mas sobre todas as famílias, e que as principais vítimas destas campanhas são, precisamente... as crianças?

Não falo só das crianças eternamente à espera de serem adoptadas, a quem o preconceito nega o direito a uma família, estigmatizando o amor entre duas pessoas como não estigmatiza o abandono; nem tão pouco apenas das crianças a cargo de casais homossexuais (sim, elas existem), a quem a lei nega a protecção legal decorrente da co-adopção. Falo também de todas as crianças nas mais variadas estruturas familiares não tradicionais (monoparentais, reconstruídas, alargadas, etc), que têm o direito a crescer sem serem catalogadas como anomalia e sem verem posta em causa a legitimidade do que as estrutura.

Defender um ranking de famílias, estabelecendo um modelo ideal que define todos os outros como degenerações é, antes de mais, fechar os olhos ao tecido social contemporâneo; mas é também defender que "a base da sociedade" se pode definir pela exclusão, regredindo até aos dias dos filhos de pai incógnito e das famílias não assumidas, e legitimando inclusive teses (absurdas) com a de que as famílias numerosas são aberrações por serem minoritárias.

Há famílias que se definem pelos laços que os membros estabelecem entre si e não por formatos abstractos, e que, comprovadamente, não são por isso nem menos nem mais funcionais que as outras. São aliás famílias que se mantêm como tal quando os formatos se alteram, estabelecendo redes de afecto e apoio muito mais fortes do que qualquer fórmula ideológica.

No fundo, tudo se resume a isto: as famílias funcionais não necessitam de passar atestados de menoridade às famílias dos outros. Defender a família é antes combater a exclusão, porque uma sociedade em que todos possam construir os seus núcleos de felicidade é sempre uma sociedade melhor.

Mariana Avelãs
in Blog "Circo Lusitano"

segunda-feira, 1 de março de 2010

As Famílias Verdadeiras: Artigo sobre a Manifestação Lisboeta pela “Família Verdadeira”

Já aqui  dei a minha opinião sobre este assunto e coloquei um artigo de Francisco Louçã.
Foi num "post" com o Título: "Desfile/Manifestação Contra a Legalização do Casamento Gay - Alguns apontamentos"
Se o quiseres ver, clica aqui.
Mas, for favor, não deixem de ler este extraordinário artigo de opinião de Alexandra Lucas Coelho, que veio no Jornal Público, secção P2, na passada Sexta-feira, dia 26 de Fevereiro de 2010.
JOÃO

As Famílias Verdadeiras - por Alexandra Lucas Coelho

Há algo de fascista em ir para a rua lutar não pelos nossos direitos, mas contra os direitos dos outros.

E definitivamente houve algo de fascista na manifestação lisboeta pela “família verdadeira”. PNR? Acção Nacional? Bandeiras negras? Acusar homossexuais da “destruição sistemática da sociedade”? Não soa a nada? Esqueceram-se como Hitler tratou do assunto? E não será isto anticonstitucional?

Mas não sei o que é pior, se a organização ter acolhido um punhado de neonazis, se aqueles milhares de pais extremosos com filhos às cavalitas, certamente convencidos de que não estavam a fazer mal a ninguém, deus os livre.

Pois estavam, pois estão. Como lembra aquele poema da Sophia sobre as pessoas sensíveis que não matam galinhas mas comem galinhas.

Impedir que os outros tenham direito ao que nós temos é fazer o bem? Nem toda a gente crê na vida eterna. Muita gente corre contra a morte sabendo que vai perder. Por isso é que Larry David defende no último filme de Woody Allen whatever Works. Tudo o que nos der um pouco de alívio, de confiança, de alegria. E se esse tudo inclui o casamento, que seja para todos.

Pergunto eu então às tão autoproclamadas famílias verdadeiras: quem vos dá o direito de dizer à sociedade que ela seja o que já não é? Quem vos dá o direito de dizer à mãe de um homossexual que a família dela não é verdadeira? Deram-se ao trabalho de pensar no que mães, pais, filhos ou avós de homossexuais sentem ao ler os vossos cartazes? Não vêem a arrogância disto? A violência?

Será fazer o bem achar que vocês são os verdadeiros e os outros são falsos? A família verdadeira é aquela que se mantém à custa de mentira, traição neurose? Não será, antes e finalmente, amor, clareza, coragem? Não serão famílias verdadeiras todas aquelas que querem, e conseguem, estar juntas?

A melhor herança do Novo Testamento é amor, amor e amor. Então dediquem-se a fazer o amor, espalhem todos esses sentimentos cristãos e deixem viver os que querem viver. Olhem para os vossos filhos, para os vossos pais, para as crianças abandonadas, para quem tem fome, frio, medo e está doente. Dêem-lhes todo esse tempo investido na promoção da suposta família verdadeira. E parem de atrapalhar o trânsito com assuntos que não são da vossa conta.

Eu não quero decidir em referendo o que dois adultos legalmente responsáveis fazem um com o outro porque não é da minha conta. E tenho as minhas ideias sobre o que os arruaceiros, gente que humilha, insulta e exclui sob protecção policial, e se propõe consumir dinheiros públicos a decidir ávida dos outros.

Sim, creiam, os homossexuais vão casar e ter filhos, é o futuro. Ninguém discriminado por raça, religião ou orientação sexual, lembram-se? Talvez os vossos filhos vos possam ensinar.

Alexandra Lucas Coelho

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Desfile/Manifestação Contra a Legalização do Casamento Gay - Alguns apontamentos

Pelas cenas que vi na TV sobre o desfile/manifestação contra a legalização do casamento gay, deu para perceber que temos pessoas, em Portugal, muito recalcadas e que são facilmente manipuladas pela Igreja. Ao ver terços, santas, crianças ao colo, e outros aparatos tristíssimos, só me apetece perguntar a essas pessoas se não têm uma vida para viver e porque não deixam cada um VIVER A SUA VIDA como muito bem lhe apetece. Ao se dar direitos a uns, não são tirados os direitos dos outros.
Para além de pessoas recalcadas, parecem-me pessoas frustradas. Porque não ficaram em casa a fazer amor em vez de ser contra o amor que outros possam sentir por pessoas do mesmo género?! Dizer, como eu ouvi, que o que preocupa é o que vai ser de Portugal no futuro sem crianças por causa dos casamentos gays, é um disparate sem qualificação. As pessoas não são, obrigadas a casar com outras do mesmo sexo! Que legitimidade têm estes argumentos que os jornalistas gravaram e puseram no ar?! É para vermos que somos um povo de pessoas atrasadas mentais?! Ou é para contagiar os mais fracos com estas ideias tão idiotas?!
JOÃO

Notas de
Francisco Louçã
no Facebook

A manifestação do ressentimento
Ontem às 13:56

Desfilaram ontem contra a legalização do casamento gay os sectores mais agressivos e reaccionários da Igreja Católica e a extrema-direita neo-nazi.É uma manifestação de puro ressentimento, sem impacto. Cerca de 95 mil pessoas terão apoiado a sua petição, algumas centenas são esperadas hoje. Entre os apoiantes da petição, quase ninguém quer aparecer nesta manifestação. Percebe-se o incómodo: não há nenhuma razão decente para que seja a lei ou o preconceito a impor a alguém quem é que pode amar e quem é que não pode amar. O respeito e a decência é a razão forte para aceitar esta lei.

Mas há um aspecto na manifestação que merece reflexão: é o empenho do PNR, o grupo neo-nazi. É um grupo muito especial: um dos seus activistas mais destacados, Mário Machado, está preso por assalto e extorsão, outros por tráfico de droga e ainda outro dirigente por ter mantido dois prostíbulos clandestinos com imigrantes brasileiras exploradas. Para um partido contra a imigração, fica tudo dito. Lá estarão, em nome da discriminação contra os gays e as lésbicas.