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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Um dia tinha que acontecer! - Mia Couto. Infelizmente, é verdade

Reencaminho...
Abraço
Mário
 
 
Não podia ser outro…
Mais umas reflexões do "grande" escritor Moçambicano Mia Couto.
A verdade nua e crua, contada no presente, …



UM DIA, ISTO TINHA DE ACONTECER
Mia Couto

Existe uma geração à rasca?

Existe mais do que uma! Certamente!

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.

A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.

Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.

Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?

Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!

Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.

A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.

Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Artigo de um Angolano: "José Eduardo dos Santos - O Génio Incompetente" | CANALMOZ - Diário Digital * CANAL DE MOÇAMBIQUE - Semanário


Hoje vi, no Publico.pt, este artigo "José Eduardo dos Santos - O génio incompetente", escrito por um Angolano.
Li e adorei ver que há quem esteja a abrir os olhos em Angola e quem já tenha, há muito, os olhos bem abertos para a realidade do regime que existe em Angola. Pena é que não possam e/ou consigam fazer uma revolução!
Fui ao "CANALMOZ - diário digital * CANAL DE MOÇAMBIQUE - semanário" onde o artigo foi editado e percebi, então, que é um site de um Diário Digital moçambicano e que é, também, um Jornal Semanário, publicado em papel, e que sai às quartas-feiras.

Para veres, clica AQUI.
Vale a pena leres o artigo!
JOÃO




Segunda, 05 Setembro 2011 05:03   
Canal de Opinião
por José Desencantado (pseudónimo)

José Eduardo dos Santos
O génio incompetente
Só um génio incompetente é capaz de, passados mais de trinta anos a governar, justificar a pobreza do país com a herança do colonialismo

Luanda (Canalmoz) - Quando era criança eu amava o presidente José Eduardo. Aos oito anos já era da OPA, mas na altura não percebia nada de política e de como gerir um país. Já havia fome, mas gostava de ver quando ele ia jogar basquete no pavilhão da cidadela e dominava a bola no centro do campo antes de começar uma partida. Gostava daquela carinha laroca de menino mimado e ingénuo, que lhe fazia parecer puro. Na altura, aquela imagem e o seu silêncio iludia facilmente a fome que já sentia e me fazia acreditar que o futuro estava seguro nas suas mãos.
Talvez porque o amava quando era criança, quando me tornei homem, e entrei para a JOTA, e comecei a perceber de política e gestão, tive dificuldades em ver nele o ditador que a oposição acusava. Continuei a acreditar que ele era apenas o menino pobre e ingénuo do Sambizanga que lutou, cresceu e se tornou presidente, e que nos ia tirar da pobreza que o colono deixou como herança. Mas hoje, quando lhe ouvi dizer que a culpa da pobreza é do colono, e não do MPLA, para justificar a situação em que estamos, foi como se a venda que tinha nos meus olhos finalmente caiu e me permitiu ver pela primeira vez o Presidente José Eduardo dos Santos, que tanto amava quando era criança.
Hoje percebi que ingénuo era eu, não ele. Ele era um génio incompetente. Sim, só um génio incompetente é capaz de, passados mais de trinta anos a governar, justificar a pobreza do país com a herança do colonialismo. Só um presidente incompetente é que não percebe que a democracia e a liberdade de expressão estão além dos jornais e das associações da sociedade civil politicamente controladas, só um incompetente é que não percebe que o povo não precisa que alguém venha do estrangeiro para lhe dizer que aquele burburinho na barriga não é lombriga mas fome.
Só um incompetente insensível não percebe que a fome se sente como o frio e a dor.
O discurso do Presidente revelou o homem por detrás daquela voz insegura e permitiu perceber o porquê da crise de gestão e de liderança do país.
O discurso revelou um presidente amarrado ao passado, completamente falho de ideias para o futuro e, definitivamente, agarrado ao poder como uma criança à primeira bola.
Esse discurso revelou um Presidente que já não é capaz de compreender o seu povo, que fala sozinho e apenas para encher o seu ego, que prefere viver rodeado de mentiras e de mentirosos que o fazem acreditar que é um ser iluminado, este discurso revelou um presidente que não tem capacidade para perceber que está na hora de partir para dar alguma esperança a esse país.
O discurso do presidente revelou um homem que não se envergonha por ver gente morrer a fome, jovens sem esperança, famílias sem futuro, e prefere racionalizar a pobreza com discursos demagogos que já nem Fidel aceita proferir.
Depois de tantos anos a governar, José Eduardo dos Santos já não se devia preocupar com o presente, devia pensar no futuro, num futuro sem ele por cá, por força da lei da natureza e das rezas que várias famílias vêm fazendo para que ele vá embora, vivo ou morto. Depois de tantos anos, em que a paz foi o seu maior feito e nos devia fazer esquecer a fome que sentimos, José Eduardo dos Santos devia lutar para deixar um legado que lhe permitisse ser lembrado como um homem de bem.
Mas, como fizeram com a independência, José Eduardo tem sido capaz de transformar a paz numa coisa má. E, assim como os nossos pais ficaram com saudades do colonialismo quando viviam independentes, ele faz-nos ter saudades do tempo da guerra, porque naquele tempo parece que vivíamos melhor.
Quando José Eduardo dos Santos já não estiver cá entre nós, além do júbilo silencioso das nossas almas, a história do país será reescrita, a sua imagem será arrancada com raiva e alívio dos gabinetes pomposos dos bajuladores do sistema, a sua imagem será retirada do bilhete de identidade e do nosso dinheiro, a universidade do planalto deixará de ter o seu nome, a sua mãe perderá o nome do hospital em Viana, a sua esposa também, o seu pai deixará de ter o nome numa rua, a sua filha primogénita perderá os seus bens a favor do povo, a outra deixará de ser presidente do Benfica e quase dona da TPA, os outros podem continuar a cantar, mas só iremos comprar os discos se forem bons, e não haverá ministras da cultura a elogiar, se forem uma porcaria, ninguém lhe vai fazer estátuas e mausoléus, os seus seguidores vão começar a falar mal dele, contando os segredos bem guardados do regime, e ele será visto pela história como o homem vazio e ultrapassado e incompetente que hoje revelou ser. Depois da longa guerra civil, José Eduardo será lembrado como um dos maiores males do país.
Perante o quadro do país que ele próprio reconheceu, e tendo em conta a falta de resultados dos seus inúmeros programas, o mais sensato e democrático seria o Presidente José Eduardo assumir publicamente que não é capaz de fazer melhor e ir embora. Como diziam os gregos, ninguém dá o que não tem, e a verdade é esta: José Eduardo dos Santos já não tem (se calhar nunca teve) capacidade política e de gestão para levar esse país aos níveis de desenvolvimento que possibilitem uma vida melhor a quem aqui vive, principalmente a juventude. Não tenhamos ilusões, os gregos têm razão, ninguém dá o que não tem.
Foi de um cinismo escandaloso a ideia de usar os nomes de Agostinho Neto e António Jacinto para justificar a pobreza. Tenho muitas dúvidas que tenha sido o Mena Abrantes a escrever aquele discurso, sou dos que também acha que foi o próprio que escreveu, e só por isso hoje se mostrou como verdadeiramente é. Mas ele não percebeu que discursos desses já não servem para nada, já não passam pela crivo da juventude e já não servem para iludir a fome que sentimos há mais de trinta anos, e a falsidade demagoga como soaram as passagens poéticas daqueles dois homens, mostram bem o distanciamento de um ditador e de um verdadeiro líder.
É verdade que não há país no mundo em que não haja corrupção, mas o Presidente se esqueceu de dizer que são poucos onde a corrupção chegou ao nível do nosso país e se tornou tão endémica. Ele explicou de onde vem a pobreza, mas esqueceu de explicar de onde veio a riqueza dos seus filhos. Se calhar no congresso do partido vai aparecer a dizer que Angola não é o único país do mundo onde os filhos do presidente e os seus amigos ficam ricos do dia para a noite. Ele disse que não tem vinte biliões de dólares em bancos estrangeiros, mas não foi capaz de dizer quanto é que tem e como o conseguiu. E a tirada dos fantoches?
Será que ele ainda não percebeu que, a partir da sua casa e terminando no seu partido, ele está completamente cercado de fantoches? E que é ele que alimenta os fantoches? Olhemos para o MPLA. Para a velha e a nova geração. Já não falemos de Dino Matrosse, Kwata Kanawa e Rui Falcão, mas é com homens como Bento Bento, Bento Kangamba, o tal de Jesuino, jovens como Luther Rescova, o Norberto Garcia, o demagogo João Pinto que ele conta desenvolver este país?
Lembro que uma vez o camarada Lúcio Lara chorou em plena Assembleia Nacional quando se discutia a atribuição da vice-presidência a Jonas Savimbi, e na altura, entre lágrimas amargas, se perguntava como era possível que intelectuais da craveira de Jaka Jamba eram capazes de seguir um homem que queimava pessoas na fogueira. Hoje, com as mesmas lágrimas no coração, pergunto-me como é possível que homens como Roberto de Almeida, Dino Matrosse, Paiva Nvunda, Ferreira Pinto, se humilhem perante um ditador e cheguem a chorar de medo quando falam no seu nome? Como é possível que mulheres como Ângela Bragança, Rosa Cruz e Silva, Suzana Inglês, Luzia Sebastião, intelectuais como Pitra Neto, Carlos Feijó, Rui Ferreira, Gigi Fontes Pereira, Bornito de Sousa, Adão de Almeida, Cremildo Paka, Manuel Vicente, Políticos como Nandó, Higino Carneiro, Kassoma, e tantos outros, sejam capazes de estar ao lado, bater palmas, e integrar um partido e o executivo dirigido por um homem como esse? Como disse chorando na altura Lúcio Lara, «só pode ser feitiço». Talvez não o feitiço tradicional de Savimbi, mas o feitiço do dinheiro e do poder. Ou talvez, como eu até ontem, eles continuem ainda com a venda nos olhos e continuem a ver naquele presidente o homem que eu via quando era criança e ingenuamente
acreditava no futuro nas mãos de um génio incompetente.
(José Desencantado, com a devida vénia)

sábado, 19 de março de 2011

GUERRA DO ULTRAMAR? GUERRA COLONIAL! | Armando de Sousa Teixeira

 
 

Vi no Facebook este texto, que te deixo, e que foi p






GUERRA DO ULTRAMAR? GUERRA COLONIAL!

Voltamos a este tema que nos é particularmente sensível : a Guerra Colonial.
 
Não só por causa do discurso reaccionário de Aníbal Cavaco Silva, numa cerimónia de cariz conservador, organizada pela Liga dos Combatentes, comemorando os 50 anos do início da Guerra, mas sobretudo por ter recebido uma mensagem comovente de um camarada de tropa, que testemunhou um acontecimento significativo por nós vivido em 1972, em plena guerra em Chipera, Tete, Moçambique.
 
Transcrevo com a compreensão do autor : “ Recordo-me perfeitamente de no final de 1972 aparecer um avião com a polícia militar de luvas brancas e levar um furriel rebelde. Para evacuar feridos no mato, quase nunca havia meios aéreos (…) Ao longo de quase 40 anos fiz muitas reflexões sobre o tema da guerra colonial e aquela imagem do avião expressamente preparado para levar o camarada, nunca saiu do meu imaginário. Coloquei a mim próprio várias interrogações : para onde o teriam levado ? O que lhe teria acontecido ? Que mal teria feito ? “
 
A Guerra Colonial foi um acontecimento dramático, trágico e traumatizante para mais de um milhão de jovens portugueses, obrigados a participar na repressão dos povos africanos de Angola , Guiné e Moçambique, em luta pela sua libertação e independência.
Mesmo para aqueles que ficaram na paz podre dos QG`s nas cidades, o relato dos acontecimentos com o cortejo de mortes, estropiamentos, massacres, torturas, e o conhecimento “in loco” da exploração desenfreada, maus tratos e repressão dos indígenas, não podia deixar ninguém indiferente.
 
Cavaco Silva ao apontar à juventude portuguesa actual, “ a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do ultramar”, coloca-se no campo dos saudosistas/ militaristas que fizeram das guerras em África um negócio de sangue, um modo de sobrevivência do regime fascista e ainda hoje sonham com o Império !…
 
Se na altura a obnubilação da consciência pela propaganda facciosa e patrioteira, podia explicar o conformismo e o carreirismo de alguns jovens milicianos e profissionais ( mais que a adesão ideológica ), a tomada de consciência com o 25 de Abril, levou a uma atitude crítica e de distanciamento, como refere C. Mourato, que volto a transcrever com a devida vénia : “ Felizmente que o 25 de Abril e os horizontes que abriu a quem quis aproveitar, deram-me respostas a estas interrogações. O jovem militar rebelde tinha, para a época, uma visão e uma cultura política mais avançada. O regime não o tinha conseguido formatar.”
 
Voltemos ao discurso do senhor presidente da República. Se algum comportamento pode ser relevado como sobressalto cívico , é o daqueles que se exilaram para não participarem na desdita de sufocar em sangue e morte o direito inalienável dos povos africanos à autodeterminação e independência.
 
No sentido de participação generosa deverá ser evocada sobretudo a coragem, o desprendimento e a determinação daqueles que sacrificaram a liberdade, a vida familiar e profissional, muitas vezes o próprio futuro, lutando por dentro do aparelho militarista para por fim ao desvario colonialista.
 
De forma determinante deverá ser enaltecida a coragem e o patriotismo dos jovens “capitães de Abril”, que interpretando o mais alto sentimento dignificador da Pátria vilipendiada, puseram fim, com risco e prejuízo da sua fazenda, ao regime colonialista-fascista de Salazar e Caetano.
 
Em última análise poderia ser valorizada a honra e coragem de dezenas de milhares de jovens africanos que morreram combatendo pela dignidade e libertação das suas terras.
Só estes jovens militares antifascistas e anti colonialistas dos anos 60 e 70 do século passado, têm direito à exemplificação histórica e a serem apontados, pela sua insubmissão e revolta, às modernas gerações que têm a responsabilidade de redimirem hoje a Pátria Portuguesa da desgraça neoliberal e capitalista em que os novos “vendilhões do templo e senhores da guerra” ( continuados detentores do poder), a estão a afundar. Também com a responsabilidade do actual Presidente da República!
 
Em nome de todos aqueles que perseguidos, presos, torturados, despromovidos, humilhados, exilados, traumatizados, deram o melhor da sua generosidade idealista e revolucionária pelo fim da Guerra Colonial, e pela redenção da Pátria Portuguesa, exigimos a correcção da interpretação histórica reaccionária feita pelo presidente da República de Portugal.
 
Armando de Sousa Teixeira
( ex-cadete , ex-furriel e ex-soldado
do Exército Português, com o nº 09420870,
mobilizado em Moçambique, 1972/74 )

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Morreu Ontem o Pintor Moçambicano Malangatana Valente Ngwenya (1936-2011)

Ontem de manhã, ao abrir a Internet, este foi o título que vi na minha homepage "Publico.pt":

          «Aos 74 anos
            Morreu o pintor moçambicano Malangatana
            05.01.2011 - 10:11 Por Lusa»


«(...)
Mais do que um pintor

Nos últimos 50 anos foi também muito mais do que pintor. Fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Fez experiências com areia, conchas, pedras e raízes. Foi poeta, actor, dançarino, músico, dinamizador cultural, organizador de festivais, filantropo e até deputado, da FRELIMO, partido no poder em Moçambique desde a independência.

Ainda que o seu lado político seja o menos conhecido, Malangatana chegou a estar preso, pela PIDE, acusado de pertencer à então FRELIMO, sendo libertado ao fim de 18 meses, por não se provar qualquer vínculo à resistência colonial.
(...)»


Fiquei emocionada. Sou filha de um pintor já falecido há 16 anos que privou com Malangatana. Vi exposições dele, conheci muita da sua obra ao vivo, por livros de pintura e por imagens de televisão.

Sou apreciadora da sua pintura muito marcada pelo turbilhão de sentimentos, alguns antagónicos, que passam pela ira, raiva, indignação, humilhação, desespero, dor, alegria, êxtase... Enfim! Uma pintura muito viva, muito gritante, cheia de cor, de pessoas, de vivências... Uma pintura inigualável, facilmente reconhecida por quem lidou com pintores e pinturas.

Li e vi trabalhos televisivos sobre o homem Malangatana e, apesar de ser mais novo 13 anos do que o meu pai, a sua maneira de ser muito se assemelhava ao homem que o meu pai foi.

Sempre que alguém relacionado com a ARTE morre, a sua obra fica e, com ela, fica também a pessoa.

Gostaria de saber expressar o que sinto. Mas eu não sou boa na escrita. Sinto muito intensamente tudo. Mas as palavras não saiem. Fui sempre um pouco assim, mas piorei grandemente quando o meu pai partiu e eu fiquei doente, para sempre, com problemas de depressão, crises de ansiedade e ataques de pânico. Cheguei a deixar de conseguir falar palavras simples e, para me fazer entender, tinha que apontar, fazer gestos, etc..

Este tipo de perdas, como a de Malangatana, mexe muito comigo. Se são pessoas que privaram com o meu pai, eu sofro quase como se o meu pai estivesse a partir, novamente.

Malangatana era Moçambicano. Mas pertence ao Mundo! E o Mundo não o esquecerá!

JOÃO

Clica duas vezes sobre as imagens para as aumentares!

sábado, 21 de agosto de 2010

Reportagem Especial da SIC Notícias: "O Meu Nome é Portugal" | Um Menino Usado como Mascote!!!

Depois do jantar, fui ver os debates nos programas de Notícias da TV por cabo.
Entretanto resolvi ver o programa da "SIC Notícias" para esta noite, depois da meia-noite. Tenho saudades de ver o "Eixo do Mal"!
Às 00:10 dará uma Reportagem Especial. Cliquei sobre o título do programa e foi parar à reportagem "O meu nome é Portugal". Já tinha passado em Junho p.p.!
Li o artigo e não resisti, com o coração pequenino, a ver o vídeo. Fiquei horrorizada com o que era comum alguns militares trazerem da guerra colonial: mascotes! Crianças - rapazes muito pequenos -, que usavam lá como mascotes e traziam quando regressavam ao continente. Depois não assumiam as responsabilidades dos seus actos.
Fiquei indignada com este caso e, quanto mais eu descubro sobre o que aconteceu durante a ditadura, mais eu me envergonho dessa fase de Portugal.
Não havia necessidade dos militares fazerem acções tão "pequenas"!
Este João Sabadino Portugal foi um caso de um menino furtado à sua família em Moçambique e, uma vez trazido para Portugal, completamente votado ao abandono.
Não me conformo! Aconteceu há muitos anos; mas devia ser tratado como crime!!!
Mas graças à SIC, o João, agora com 47 Anos, voltou para Moçambique e encontrou a sua mãe e irmão.
JOÃO

"O meu nome é Portugal"
João Sabadino Portugal deve o nome às ironias do destino. Foi capturado num sábado, pela tropa portuguesa. Corria 1967, no Norte de Moçambique, a guerra colonial arrastava-se a ferro e fogo. Franzino nos seus cinco anos, passou por baixo das balas dos fuzileiros. Caladas as armas, capturaram-se os vivos. Entre eles, seguia o pequeno. Os militares acharam-lhe graça, tiraram-no da mãe e fizeram-no mascote.

Reportagem Especial | 10-06-2010

O serviço de vídeo SIC é suportado, em parte, por publicidade. Por esse facto, a transmissão dos nossos conteúdos pode ser antecedida ou interrompida por mensagens publicitárias. Contacte: atendimento@sic.pt

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Publicação: 08-06-2010 21:19 | Última actualização: 23-06-2010 12:38

 "O meu nome é Portugal"

Há vidas que não se explicam. João Sabadino Portugal deve o nome às ironias do destino. Foi capturado num sábado, pela tropa portuguesa. Corria 1967, no Norte de Moçambique, a guerra colonial arrastava-se a ferro e fogo. Franzino nos seus cinco anos, passou por baixo das balas dos fuzileiros. Caladas as armas, capturaram-se os vivos. Entre eles, seguia o pequeno. Os militares acharam-lhe graça, tiraram-no da mãe e fizeram-no mascote.

Reportagem Especial

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Finda a comissão, os fuzileiros trouxeram-no para Lisboa. Desembarcou com a farda portuguesa, as cores nacionais ao peito, apenas sete anos. Mas a paz só trouxe guerra. A adolescência apanhou-o a viver na rua, ao abrigo de carros abandonados, pratos de sopa por misericórdia. Trabalhou nas obras, foi cozinheiro, agarrou todos os biscates. Teve Bilhete de Identidade, quando precisou da segunda via negaram-lha. Nunca mais teve documentos. Viveu sempre ilegal.
 
Hoje, João Sabadino Portugal é esperança. Tem dois grandes sonhos: conseguir documentos e viajar até Moçambique. O seu caminho tem um único destino: o abraço da mãe. Será que a vida tem final feliz?
 
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Jornalista: Ana Sofia Fonseca
Repórter de imagem: Paulo Cepa
Edição de Imagem: Luís Gonçalves
Grafismo: Isabel Cruz
Produção: Sónia Ricardo
Pós-Produção Áudio: Edgar Keats

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Actor e Encenador António Feio (1954-2010) | Entrevista do Jornalista Daniel Oliveira a 19/09/2009 no Alta Definição da SIC

 Actor e Encenador António Feio
 (1954-2010)


Vou deixar, para estar à mão e recordar sempre, a entrevista de 19 de Setembro de 2009, que vi em que o António Feio conversa com o Jornalista Daniel Oliveira no programa Alta Definição da SIC.

A conversa é já acerca da sua luta contra o cancro no pâncreas, da mesma doença que tinha vitimado, na semana anterior a sua irmã tão querida e amada, e da sua vontade de lutar, vencer a doença e viver...

É uma entrevista que está registada em 3 vídeos, mas que eu quero enaltecer o papel do entrevistador que deve ter feito a entrevista mais sensível da sua carreira e fê-la com uma dignidade incrível e um profissionalismo extraordinário.

Quanto ao António Feio ele iniciou aí uma postura diferente daquilo que tinha. Era uma pessoa mais reservada que, sabendo que não viveria muito mais, quis aproveitar todas as oportunidades para, de uma forma bem-disposta, esperançosa e confiante, dar um exemplo de luta e de estar numa doença que pode matar, sem deixar de viver cada dia, cada hora, cada minuto com entrega à vida, olhos postos no minuto seguinte, com projectos, sem pensar que a cura não lhe estaria ao seu alcance. Mas poderia ir "comprando" tempo de vida...

Fez, tanto em entrevistas, como mensagens em vídeos, como no Facebook, uma exposição antes não vista, para deixar a todos os que o amavam, a mensagem que se vive lutando, mas, também, aceitando o que ela nos reserva, sempre com boa atitude e disposição.

Não me esqueço nunca como ele falou sempre do seu cancro e agradeceu ao seu pâncreas, nos Globos de Ouro, por todos os convites que estava a receber ultimamente para uma exposição mais pública.

Só um grande ser humano tem uma postura idêntica! Só um Ser Único e raro! E o actor e encenador António Feio foi e é um Ser Único!


Mais de 40 anos de carreira, no cinema, teatro, televisão! Com José Pedro Gomes arranjou uma nova fórmula de televisão, teatro e cinema, com o "Conversa da Treta" um marco que o deu a conhecer como um extraordinário comediante, um génio com um humor natural e que emanava uma genial espontaneidade.


Uma pessoa completamente sabedora daquilo que valia da popularidade e admiração que tinha, mas um anti-vedeta e um homem muito simples, muito humano, muito sensível, muito inteligente, muito completo.

Hoje o corpo de António Feio irá para o Palácio Galveias, em Lisboa, a partir das 18h30 de hoje, onde ficará em câmara ardente.

O funeral será amanhã, Sábado, pelas 16 horas, no Cemitério dos Olivais.

Até sempre, António Feio!!!

JOÃO


1 António Feio entrevistado por Daniel Oliveira
19/09/2009 | Parte 1/3
 
2 António Feio entrevistado por Daniel Oliveira
19/09/2009 | Parte 2/3
 
3 António Feio entrevistado por Daniel Oliveira
19/09/2009 | Parte 3/3
ramos39 | 21 de Setembro de 2009
António Feio conversa com Daniel Oliveira no programa Alta Definição da SIC acerca da sua luta contra o cancro no pâncreas e da sua vontade de viver.

Morreu o Actor e Encenador António Feio | Lourenço Marques - 6 Dezembro 1954 / Lisboa - 29 Julho 2010

Actor e Encenador António Feio (1954-2010)

 Antonio Feio 1966

tiagosmforte | 8 de Outubro de 2009
António Feio e Rui de Carvalho em
"O Viajante sem Bagagem" - 1966

O actor e encenador António Feio faleceu, esta Quinta-Feira que findou, pelas 23.25 horas, no Hospital da Luz, em Lisboa, onde estava internado há cerca de duas semanas em fase terminal de um cancro no pâncreas.

Penso que todos nós sabíamos que ele não iria viver durante muito mais tempo. Mesmo psicologicamente preparados, a notícia da morte de alguém que nos é querido, que faz parte da nossa realidade, que nos marca por alguma razão, é sempre com dor e angústia que recebemos essa notícia.

Eu frequentava o Teatro Experimental de Cascais quase diariamente, antes de ir para Inglaterra estudar. Tinha muitos amigos lá e a minha melhor amiga era a actriz Zita Duarte que faleceu, também, ainda nova e vítima de cancro. O meu melhor amigo era o sonoplasta Fernando Pires que já faleceu, também, mas que teve uma vida mais longa.

Foi lá que conheci muitos actores e outros técnicos de teatro, muitos que já partiram, alguns que ainda cá estão, felizmente, como a Maria do Céu Guerra.

Eu era muito nova, mas o António Feio era um miúdo quando começou a ir para o Teatro Experimental de Cascais e penso que foi lá que iniciou sua carreira de actor no teatro. Mas não tenho a certeza. Em 1966 tinha já entrado num filme com o já grande Rui de Carvalho, "O viajante sem bagagem". Era mesmo, então, uma criança!
Não me relacionei com ele, como fiz com tantos outros actores. Ele era muito mais novo e eu fui 6 anos para Inglaterra. Mas, mesmo se o não tivessse conhecido, era uma figura pública, da cultura portuguesa, e um ser extremamente simpático. Quem não vai sentir esta perda!?

Não vou dizer mais nada. Estou triste!

Tanto se vai falar sobre António Feio e todos os órgãos de comunicação social vão traçar o perfil do homem-menino bom, com garra, com humor, com muita criatividade, boa disposição...

Vão falar de Moçambique, sua terra natal. António Feio nasceu em Lourenço Marques a 6 de Dezembro de 1954.

Eu só posso deixar um adeus sentido e um desejo que continue a brincar e a fazer teatro, porque cada vez mais tenho a sensação que a vida continua, de uma outra forma, numa outra dimensão...

Até sempre, António Feio!
JOÃO
carlosm28 | 11 de Outubro de 2006

CONTRALUZ - EM EXIBIÇÃO
Trailer 1 com mensagem de António Feio
 Partilhem a mensagem!
 FilmeContraluz | 11 de Março de 2010
Filme do realizador português Fernando Fragata inteiramente filmado nos Estados Unidos que conta no elenco com actores americanos e portugueses, entre eles, Joaquim de Almeida e Evelina Pereira.
Uma história ao estilo de Twilight Zone (A Quinta Dimensão) com um forte conteúdo Humanitário.