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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Miguel Portas | Comentário da Semana | «Conselho Europeu: Mais Austeridade, “Mais Policiamento”, Mais Crise, Menos Democracia…»

Esta entrevista de Miguel Portas ao programa “Conselho Superior" da Antena 1, em que o Eurodeputado eleito pelo Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu, faz o seu comentário semanal sobre a actualidade política, desta vez não está em vídeo, mas pode ser ouvida, clicando AQUI. Um dos temas é, como seria óbvio, a redução de 50% da dívida grega.
Mais uma sábia e imperdivél entrevista de Miguel Portas!
JOÃO

Miguel Portas no programa "Conselho Superior"
Antena 1 - 2011/10/28
Comentário da semana
Conselho Europeu: mais austeridade, “mais policiamento”, mais crise, menos democracia…
Sexta, 28 Outubro 2011 12:35
crise05
No Conselho Europeu desta semana não foram os bancos que perderam; quem perdeu foram os mesmos de sempre, os que são vítimas da austeridade, ainda agora agravada com a “tarracha” de novas medidas de policiamento através dos quais os países com maiores dificuldades entregam a gestão das suas finanças à troika, demonstrou o eurodeputado Miguel Portas.

Na sua intervenção semanal no espaço Conselho Superior da Antena Um, O eurodeputado da Esquerda Unitária (GUE/NGL) eleito pelo Bloco de Esquerda afirmou que, apesar das manifestações de satisfação, no Conselho Europeu “tomaram-se menos decisões do que parece”, o perdão da dívida grega “não é exactamente um perdão” e não foram adoptadas quaisquer medidas de estímulo ao crescimento económico porque o agravamento da austeridade é exactamente o contrário disso.
Miguel Portas enumerou as “medidas de policiamento” adoptadas: os governos dos países com maiores dificuldades terão que entregar os seus projectos de orçamento em primeiro lugar à troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) para que esta o examine, ponha a sua chancela e só depois os disponibilizarão aos partidos, ao Parlamento, o que desde logo avilta o processo democrático; em segundo lugar, e por enquanto só no caso da Grécia, a troika instala-se mesmo em Atenas, pelo que o primeiro ministro e o ministro das Finanças só governarão “indo a despacho” com esta; a terceira medida, “a mais estúpida de todas”, segundo Miguel Portas, é a “tentativa de constitucionalizar o nível máximo de défice e de dívida” dos países membros da União Europeia.
Três medidas, resumiu o eurodeputado, “todas más para a democracia, para as responsabilidades dos países”.
Quando ao “perdão da dívida grega”, Miguel Portas sublinhou que não é bem isso mas sim “o reconhecimento de uma forma clara de que a dívida grega era impagável e tinha que ser reestruturada”, o que ele próprio já afirmava há cerca de ano e meio.
Além disso, esse “perdão” não é imperativo, por exemplo o maior credor, o Banco Central Europeu, fica de fora e está tudo “ainda muito complicado” porque no Conselho “houve acordo sobre tudo e sobre nada porque ninguém tratou dos detalhes”.
Mas admitindo, prosseguiu Miguel Portas, que os bancos principais credores vão perder 100 mil milhões de euros na Grécia, esse é exactamente o valor de recapitalização dos bancos decidido pelo Conselho Europeu. “Na verdade os bancos não se perdem”, disse o eurodeputado, “livram-se de títulos que já não valiam nada e ganham capitais de boa qualidade”.
Quem perdeu mesmo, acrescentou, “são os mesmos que continuam a sofrer a austeridade” e vão ver a sua situação agravada “com o apertar de tarracha através dos mecanismos de prevenção e policiamento em matéria de coordenação económica”.
Assim sendo, deduziu Miguel Portas, vê-se que o Conselho Europeu percebeu com ano e meio de atraso que a dívida grega era impagável, a seguir vai descobrir que a dívida portuguesa é impagável e não tomou nenhuma medida, antes pelo contrário, para estimular a economia.
“Ora um pobre nunca paga melhor uma dívida que um menos pobre ou um rico”, sublinhou o eurodeputado. Por isso “enquanto os governos não reconhecerem esta contradição”, ou seja, que o verdadeiro problema está na “via do empobrecimento”, está na austeridade, que não pode por a economia a crescer, “a crise vai continuar e cada cimeira será mais complicada do que a anterior”.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Miguel Portas | Comentário da Semana | «As "boas e más" notícias de uma semana agitada»

Tenho andado adoentada. Mas não me esqueci da entrevista de Miguel Portas ao programa “Conselho Superior" da Antena 1, em que o Eurodeputado eleito pelo Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu, faz o seu comentário semanal sobre a actualidade política.
Miguel Portas comentou o nselho Europeu que teria lugar nesse fim-de-semana - que já passou, entrentanto -, comentou a execução "sumária" de Muamar Khadafi, na Líbia, e o anúncio do fim da ETA, no País Basco.
Já com uns dias, esta entrevista, mas sempre imperdível, como todas as entrevistas que Miguel Portas dá, cheia de bom senso e sabedoria.
JOÃO
Miguel Portas no programa "Conselho Superior"
Antena 1 - 2011/10/21
Comentário da semana
Carregado por em 21/10/2011


Segunda,  24 Outubro 2011 10:47

No Conselho Superior da Antena Um, Miguel Portas antecipou o Conselho Europeu, disse que as circunstâncias da “execução sumária" de Khaddafi “podem levar à Líbia muitos problemas durante muito tempo" e saudou “o adeus às armas” da ETA.
“No meio da desordem” em que vive a União Europeia, Miguel Portas sublinhou uma “boa notícia”. A de que a Comissão Europeia vai propor aos governos que ponderem a possibilidade de retirar as dívidas soberanas dos países sob resgate das classificações das agências de notação. “Em Maio fiz essa proposta aqui no Parlamento Europeu e quase que fui considerado maluco”, lembrou o eurodeputado.
Em relação ao linchamento de Khaddafi, Miguel Portas lamentou que, com algumas excepções entre as quais a do caso português, os ministros dos Negócios Estrangeiros “tenham conseguido expressar satisfação por uma morte naquelas condições”, uma atitude “que não é muito boa para o mundo”. Segundo o eurodeputado, o que este agora em causa é o futuro da Líbia: “ou consegue a reconciliação nacional numa sociedade profundamente tribalizada ou então a morte do líder enquanto mártir vai obviamente levar à Líbia muitos problemas durante muito tempo”.
O abandono das armas pela ETA é, de acordo com Miguel Portas, “uma excelente notícia”. A decisão do grupo independentista basco deve-se, segundo o eurodeputado, à combinação entre a sua debilidade militar “e a força crescente do seu braço político, que não quer continuar subjugado à lei das armas.

 

sábado, 12 de fevereiro de 2011

MIGUEL PORTAS EXPLICA O NÃO-DOCUMENTO DA ÚLTIMA REUNIÃO DO CONSELHO EUROPEU | «A Não-Felicidade»

A não-felicidade

Produzido por Miguel Portas, 12/02/2011

Miguel Portas explica o não-documento da última reunião do Conselho Europeu


O Conselho Europeu do passado fim-de-semana foi assombrado pelo espectro de um plano franco-alemão para a governação económica da União Europeia. Angela Merkel afirmou que 2011 é o ano de uma renovada confiança no euro e que esperava que o actual presidente do Conselho Europeu tratasse dos detalhes de execução do seu plano; aí, Sarkozy fez de Dupont e afirmou que este iria fortalecer a competitividade e a convergência das diferentes economias.

Como é habitual, o presidente do Conselho veio ao Parlamento Europeu apresentar as conclusões da reunião ante os presidentes dos grupos parlamentares. Pelo que se ouviu, estes não gostaram, seja por razões de conteúdo, seja por causa da forma como a dupla de governantes se arroga do direito de funcionar como um governo dos governos de toda a UE.

A primeira fase do plano assenta em seis pontos. Um deles é a abolição dos sistemas de indexação dos salários à inflação, uma regra que existe em vários países europeus e que, na Bélgica, por exemplo, permite que, mesmo sem governo, os salários não percam poder de compra. Talvez por isso, o presidente do grupo liberal, ex-primeiro ministro belga, tenha insistido tanto com o presidente do Conselho Europeu, também ele ex-primeiro ministro belga, para saber como podia ele defender tal posição...

Entre as restantes medidas, encontram-se duas pérolas: o ajustamento da idade de reforma à “evolução demográfica”, ou seja aos 67 anos, e a constitucionalização do limite do défice, que, em última instância, levaria a dívida pública a zero dentro de algumas décadas, ou seja, ao estado mínimo do Estado.

As perguntas dos presidentes dos grupos parlamentares sucederam-se até chegar o momento das respostas. E aí, surpresa das surpresas, o presidente do Conselho afirmou alto e bom som que o tal do plano, afinal, nunca existira... mesmo que metade dos deputados presentes na sala o tivessem em fotocópia. Em gíria europeia a coisa é um “não-documento”. Não existe, logo não é louvável nem criticável. Longe de acalmar a plateia, esta revelação incendiou a pradaria. O social-democrata alemão que preside ao grupo socialista rasgou ostensivamente o “não-documento” e saiu da sala.

Merkel e Sarkozy, antevendo as reacções adversas de alguns países, terão metido o plano na gaveta à espera de melhores dias. Que se prevêem sejam os de Março em que, após uma quantas não-conversas privadas com os líderes europeus recalcitrantes, o duo finalmente chegue com toda a naturalidade ao consenso entre os 27. Nesse dia, os salários e as pensões de reforma serão os sacrificados desse altar onde, como se escreve no “não-documento”, se “assegura a felicidade da unificação europeia para as gerações futuras”. Por que será que os ingratos dos europeus teimam em não a sentir?

Texto publicado originalmente no semanário "Sol"