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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Artigo de Alberto Matos «“Oi, Vivo” – Não era Preciso ser Bruxo…» | A COMUNA

Mais um excelente artigo de Alberto Matos, que saiu na Comuna, e é sobre todo o folhetim PT, Telefónica, Vivo e Oi...

Novamente deixo uma frase para abrir o apetite à leitura desta crónica:

"De facto, não é preciso ser bruxo. Mas dá um jeito danado manter actualizada a análise científica do sistema capitalista/imperialista, sob uma perspectiva marxista para o século XXI."

Não percas! os artigos de Alberto Matos são mesmo extraordinários!

E se quiseres ler ou reler a crónica dele "Vivo, o capital não tem pátria…", clica AQUI.

JOÃO

 “Oi, Vivo” – não era preciso ser bruxo…

Em meados de Julho, perante os ânimos exaltados com o fracasso aparente da compra da Vivo pela Telefónica, publicou “A Comuna” on-line o meu artigo “O capital não tem pátria” (1):

“Está para durar a novela da oferta da Telefónica para a compra da participação da PT na Vivo, a maior operadora de telecomunicações da América Latina. Chumbada (para já) pelo recurso à golden share que o Estado português detém na PT, a operação está longe do seu termo”.

Sob a onda condenações de banqueiros, do PSD, do Tribunal Europeu instigado pela Comissão Barroso e face aos arroubos patrioteiros de Sócrates, abordei este “ensaio de um novo Tordesilhas para as telecomunicações da América Latina” e atrevi-me a vaticinar:

“O negócio da Vivo irá terminar com mais uma parceria ibérica. Na fase actual do capitalismo, os diversos sócios estão condenados a disputas e alianças à mesa do conselho de administração da mesma transnacional. Se os EUA e a China se entendem para estancar a crise financeira, o que vale uma guerreia entre a PT e a Telefónica?” (1)

Quinze dias depois, a troca de participações directas e indirectas que a PT e a Telefónica detêm na Oi e na Vivo, pareceu surpreender muita gente. Sendo insuspeito de pertencer ao círculo íntimo de Zeinal Bava e quejandos, dificilmente poderia ter acertado mais perto da mouche.

A euforia perante este desfecho deixou claro que o patriotismo dos banqueiros, do PS, PSD e CDS se mede em milhares de milhões de euros. E “no final, ganharam todos” – o que, nesta fase do capitalismo global, é meia verdade. A perder ficaram os trabalhadores, e não apenas com esta operação. O cancro começou com as privatização, da PT e não só.

“O PEC acordado com o PSD é a prova de vida do governo Sócrates, cuja firmeza anti-neoliberal vale tanto como o patriotismo de um Ricardo Salgado. E o ministro Teixeira dos Santos não o deixa mentir: na longa lista de privatizações do PEC não há mais lugar para golden shares…” (1)

À esquerda, entre várias reacções, o PCP classificou este negócio como “um acto de capitulação dos interesses nacionais determinado pelos interesses dos principais accionistas privados da PT”.

Mesmo perfilhando uma análise do imperialismo que está a completar um século, é estranho que o PCP confunda os interesses nacionais com “a defesa do seu próprio imperialismo” – neste caso de uma posição dominante da PT (empresa privada, mas ainda que fosse pública…) na “brasileira” Vivo. Até pela cartilha que o PCP ainda diz seguir, isto deveria cheirar a neocolonialismo.

Mas o desnorte desta posição tem a ver, sobretudo, com o fim dos velhos impérios em disputa por uma nova partilha das colónias que esteve na origem de duas guerras mundiais. O processo de globalização, no último quartel do século XX, sofreu enorme impulso com a queda do “socialismo real” e conduziu o sistema capitalista a um novo patamar, a que o 16.º Congresso da UDP, em 2003, chamou de imperialismo global.

É esta análise que importa aprofundar, tendo em conta o novo papel de potências emergentes, como o chamado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o G20 e a nova realidade do G2 (EUA, China) consolidada na crise financeira global – ver a 5.ª Conferência da UDP - AP, Maio de 2010.

E não era preciso ser bruxo para adivinhar os contornos do desfecho de negócios como os da Oi – Vivo e outros que o rescaldo neoliberal da tempestade financeira veio acelerar: fusões de bancos, companhias de aviação, sectores da energia, informática e telecomunicações, privatizações de serviços tradicionalmente públicos, etc. E, sobretudo, a maior transnacionalização do capital.

De facto, não é preciso ser bruxo. Mas dá um jeito danado manter actualizada a análise científica do sistema capitalista/imperialista, sob uma perspectiva marxista para o século XXI.

Alberto Matos

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Artigo de Alberto Matos «Vivo, o Capital não tem Pátria…» | A COMUNA

Um excelente artigo de Alberto Matos, activista da Bloco de Esquerda, que saiu na Comuna, e é sobre o oferta da Telefónica para a compra da participação da PT na Vivo e todo o folhetim e enredo que esta oferta gerou, está a gerar e ainda vai fazer correr muita tinta.
Deixo uma frase para abrir o apetite:
"Entre Sócrates travestido de “padeira” e Passos Coelho de visita a Aznar, onde paira o espectro de Manuela Ferreira Leite e o silêncio ensurdecedor de Cavaco Silva?"
Não percas! Vale a pena, mesmo!
JOÃO

 Vivo, o capital não tem pátria…  
14-Jul-2010

Está para durar a novela da oferta da Telefónica para a compra da participação da PT na Vivo, a maior operadora de telecomunicações da América Latina. Chumbada (para já) pelo recurso à golden share que o Estado português detém na PT, a operação está longe do seu termo.

Seguiram-se a condenação do Tribunal Europeu, instigada pela Comissão Barroso (o ultraliberal mentiroso da cimeira dos Açores) e a nova proposta de negociações da Telefónica à PT.

Enquanto se aguardam as cenas dos próximos capítulos, o comportamento de alguns actores é revelador dos interesses em jogo e da seriedade das suas convicções.

O patriotismo dos banqueiros, pela voz de Ricardo Espírito Santo Salgado, mede-se em milhões de euros. O fervor do “núcleo duro nacional” transformou-se em entusiasmo pela venda das acções da Vivo. Numa curiosa cambalhota, concluiu que o recurso à golden share pode provocar uma OPA hostil da Telefónica sobre a totalidade do capital da PT, face à qual o governo deverá recorrer… à golden share!

Em tempo de mundial, alguns comentadores viram no chumbo à compra das acções da Vivo pela Telefónica uma espécie de desforra da triste saga queirosiana na África do Sul ou, quiçá, uma nova Aljubarrota. Empolgamento descabido: afinal é apenas o ensaio dum novo Tordesilhas para as telecomunicações da América Latina – e é sabido que a História costuma repetir-se como farsa.

Entre Sócrates travestido de “padeira” e Passos Coelho de visita a Aznar, onde paira o espectro de Manuela Ferreira Leite e o silêncio ensurdecedor de Cavaco Silva?

Não estando em causa os destinos da pátria, tudo se resume a saber se a venda das acções da Vivo é ou não um bom negócio… para quem. E o problema não se reduz à existência ou não da golden share, sempre transitória. O cancro foi a própria privatização da PT e não só.

A crise financeira e a nacionalização dos prejuízos da banca tornaram claro que a privatização da GALP, da EDP, das telecomunicações, dos bancos e seguradoras, foi um péssimo negócio para os trabalhadores e o povo português. A ameaça estende-se agora a serviços públicos como a água, a educação, a saúde, os comboios e até os CTT, até hoje intocados nas mãos do Estado.

O PEC acordado com o PSD é a prova de vida do governo Sócrates, cuja firmeza anti-neoliberal vale tanto como o patriotismo de um Ricardo Salgado. E o ministro Teixeira dos Santos não o deixa mentir: na longa lista de privatizações do PEC não há mais lugar para golden shares…

O negócio da Vivo irá terminar com mais uma “parceria ibérica”. Na fase actual do capitalismo, os diversos sócios estão condenados a disputas e alianças à mesa do conselho de administração da mesma transnacional. Se os EUA e a China se entendem para estancar a crise financeira, o que vale uma guerreia entre a PT e a Telefónica?

Hoje é mais evidente a velha máxima: o capital não tem pátria, nem cor, nem cheiro, nem alma e atinge o seu grau absoluto de sublimação na lavandaria dos offshores.

Os trabalhadores têm coração, alma e vida, amam sem complexos a sua região e o país, mas não são joguetes do patrioteirismo serôdio da burguesia. E a sua luta tem uma dimensão transnacional.

Na agenda alterglobalista, aí estão a greve geral decretada em Espanha para 29 de Setembro e o apelo do Fórum Social Europeu, reunido em Istambul, a uma jornada de luta europeia e mundial para que não sejam sempre os mesmos a pagar a crise.

Aí sim, vale a pena gritar: Viva la Roja!
Alberto Matos