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domingo, 24 de julho de 2011

Entrevista a Mário Tomé | Vídeo "Baseado Numa História Verídica" | Sapo Vídeos

Uma entrevista muito interessante de Mário Tomé!
Uma história de vida!
Gostei muito e penso que os mais jovens deveriam ver para terem noção de outras realidades do antes do 25 de Abril de 1974.Clica no link que te deixo para veres o vídeo ou copia a linha com o endereço para o teu browser.
http://videos.sapo.pt/CyNGyDZ8zKk8GN8lpQqG
JOÃO
Entrevista a Mário Tomé
Sapo Vídeos
Para veres o vídeo, clica AQUI!
DESCRIÇÃO: Histórico líder da UDP, militar de Abril, coronel na reforma e militante activo do Bloco de Esquerda, Mário Tomé continua um homem de convicções fortes. Para a maior parte das pessoas, ele será sempre o Major Tomé.

14º episódio da 1ª temporada do programa "Baseado Numa História Verídica".

Convidado da semana: Mário Tomé.

"Baseado Numa História Verídica" vai para o ar todos os sábados à noite, no canal Q, estando também disponível no On Demand.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

50 Anos em 4 de Fevereiro | A GUERRA COLONIAL COMEÇOU HÁ CINQUENTA ANOS por Mário Tomé


Uma noite destas, num dos Canais de Notícias de TV por Cabo, já depois do dia 4 de Fevereiro, vi um documentário sobre a Guerra Colonial duma cruesa que, já sabendo que se tinha passado assim, me deu voltas ao meu íntimo e me deixou ainda mais marcada pela guerra. Era passado em Tete, Moçambique.
Depois aconteceu uma conversa entre o apresentador e o Coronel Mário Tomé, um dos Capitães de Abril, conversa essa fascinante, ilucidativa e muito bem conduzida. Mas eu, que só vejo debates e conversas, esqueci o canal e quem conduzia o programa. São tantos os que vejo - às vezes sem olhar para a televisão -, e/ou ouço apenas.
Na Guerra Colonial perdi amigos... Aquele que viria a ser meu marido e pai do meu filho esteve em Angola de 1962 a 1965 e, embora só o tivesse conhecido mais tarde e casado em 1970, fui vítima do "stress pós-traumático dele" que, ainda hoje, marcam as nossas vidas - a dele, a minha e a do meu filho.
Tenho horror à guerra! A qualquer guerra! Ainda hoje o meu marido grita de noite, a dormir, com uns gritos que não são comuns, mas de um horror que me faz ter que o acordar com medo que ele morra...
Sei muito do que ele passou. Nos primeiros anos de casada ele não parava de falar da guerra, noites inteiras sem conseguir dormir. Relatos de horror de coisas que ele viu em fotos e ao vivo, tão marcantes, que até eu, sempre que penso nelas, sinto como se levasse murros nos estomago!...
Ele nunca quis ajuda médica. Mas precisava dela! E muito! Eu precisei de fazer psicoterapia... E não faria mal ao meu filho se ele tivesse tido apoio, também.
É importante que conheçamos a nossa história, muito mais esta história ainda recente que marcou pessoas da geração do meu marido, 7 anos mais velho do que eu, e as gerações seguintes, como ainda as gerações de muitos adolescentes e crianças, descendentes desses homens que combateram numa guerra que não queriam e que viram coisas que os mutilaram por dentro, mesmo aqueles que não vieram mutilados por fora...
Deixo um extraordinário artigo do Coronel Mário Tomé.
JOÃO 


A Guerra Colonial
por Mário Tomé
5 de Fevereiro de 2011

A guerra colonial começou há cinquenta anos. Apesar de trabalhos de grande fôlego na ficção, da grande seriedade e rigor histórico e científico de obras históricas e de investigação dedicada, o que continua em vigor e a determinar a atitude da população é a mitologia patrioteira (cada vez mais equivalente a patriótica, mas vamos devagar).

Ela é propagada pelas versões oficiais da burguesia e seus criados políticos a fim de manter uma atitude cidadã de baixo perfil que aceite a participação activa em novas aventuras coloniais sob as ordens dos EUA e do imperialismo em geral, que desculpabilize a sua responsabilidade nos crimes contra a humanidade que são cometidos pelas tropas coloniais nesta guerra infinita contra os povos.

Quando eclodiu a guerra colonial, as colónias ainda só existiam, enquanto tal, há 76 anos. O amor acrisolado e a patriótica vinculação àquelas terras tão «portuguesas como o Minho», tinha poucas raízes para além dos Lusíadas, da História Trágico Marítima, da Peregrinação, do Zé do Telhado ou do Amor de Perdição. No princípio do século XX viveriam em África 12 mil portugueses, e apenas ao longo da costa. A primeira República que entrou na carnificina da I Guerra Mundial para garantir a posse das colónias, lançou as bases de uma efectiva exploração colonial.

Depois do golpe de 28 de maio de 1926, a exploração colonial permitiu a acumulação fácil e rápida do capital à burguesia industrial e financeira e capacitou-a para se interpenetrar com o capital imperialista, numa situação de progressiva e rápida dependência.

A sociedade colonial assentava na exploração total e integral do negro, ultrapassando a própria situação de escravatura. Os colonos, do mais boçal ao mais esclarecido, tinham, na prática, poder de vida e de morte sobre ele. O indígena recebia o estritamente indispensável para pagar o «imposto de cabeça» devido pelo simples facto de se saber que ele existia e para pagar o que era obrigado a comprar na cantina da fazenda ou da roça. Era-lhes vedada qualquer actividade política e sindical, a língua ou dialecto não eram tidos em conta, foram expulsos das terras férteis e não usufruíam de direitos. Quando muito a protecção que o patrão lhes quisesse dar. Exceptuavam-se, usufruindo de alguns direitos, cerca de 2,5% de assimilados. Este o Portugal pluricontinental e multiracial.

Não poderemos admirar-nos se as primeiras rebeliões, de camponeses e contratados, sob a direcção tribal da UPA, foram de uma violência inaudita. Se até o sofisticado racismo britânico não foi poupado no Quénia!...

Como um dia disse Amílcar Cabral, «quando morrem inocentes ninguém é inocente»

A pátria que quase um milhão de soldados defendeu durante 13 anos era constituída pela família Mello, pela família Champallimaud, com associações de passagem ao conde de Caria e ao visconde de Botelho; a família Quina, a família Espírito Santo, as famílias Feteira-Bordalo, Vinhas, Albano Magalhães, Abecassis, Sousa Lara, pelo Grupo Fonsecas e Burnay e mais o Banco Nacional Ultramarino . Estão aí, todos, a mandar no país.

Por eles, a mando deles, deram a vida mais de 8 mil portugueses, ficaram feridos 30 mil, estão gravemente feridos na mente mais de cem mil – com o passar dos anos e o envelhecimento este número vai aumentando até que a morte o faça diminuir e depois acabar – e uma infinidade ferida na alma.

Por eles, a mando deles, as despesas do Estado ficaram hipotecadas em grande escala à guerra.

Por eles, a mando deles, deram a vida cerca de 300 mil africanos a que se deverá acrescentar as vítimas, por eles a mando deles, dos massacres anteriores à guerra colonial: Batepá, em S Tomé em 1953, Pidjiguiti, Guiné Bissau em 1959, Mueda, Moçambique em 1960, Baixa do Cassange, Angola em 1961, seguido do massacre urbano como retaliação ao ataque à cadeia de Luanda pelo MPLA, em 4 de fevereiro de 1961 data oficial do início da luta armada contra o colonialismo.

Estes massacres foram o sinal de que nada havia a esperar do poder colonial, de que era impossível contar com uma solução negociada mesmo tendo em conta o carácter serôdio, já fora da história, do ultra-colonialismo português.

Depois foram os treze anos de guerra. Uma guerra tecnicamente de baixa intensidade, mas, humanamente, de alta brutalidade. No seguimento, aliás, da colonização que foi tudo menos sofisticada, assentando num racismo rural que dava para fazer vida com as negras e delas ter filhos e para mandar enforcar o irmão delas se fosse demasiado recalcitrante, incómodo ou, apenas, pouco submisso.

Nas guerras de libertação, as populações são sempre confundidas, usemos o eufemismo oficioso, pelo colonialista ou pelo ocupante com o inimigo – veja-se as tropas da coligação no Iraque.

A realidade é que não pode ser de outro modo. Salvo aquela parte que está disponível para colaborar, por razões diversas, a população é ou virá a ser um inimigo, com ou sem arma. A violência do exército colonial português não foi maior por se tratar de um exército dirigido por um regime ditatorial.

Ninguém espere comportamento decente de quaisquer tropas de ocupação. Ele é impossível. Pelo carácter mesmo do conflito. Na guerra colonial, naturalmente, também.

Claro que as ordens eram, em geral, em sentido aparentemente contrário: conquistar as almas, como diria o general Kaulza de Arriaga3, conquistar as mentes como diria o General Spínola, ganhar as consciências como diria o General Costa Gomes, amar as populações como a nós mesmo, terá dito centenas de vezes o General Silvino Silvério Marques. E assim por diante.

Enterrem-nos, queimem-nos, apaguem os vestígios, diziam todos depois dos massacres.

A tragédia é que, quem fazia esses massacres e cometia esses crimes, eram jovens arrancados à universidade, à escola técnica, ao amanho da terra, ao trabalho na fábrica. Raramente foram seres marginais recrutados para a guerra, como por vezes se quer fazer crer. E esse foi o outro lado da tragédia: porque uma boa parte dos afectados duramente pelo stress pós-traumático - algo que só muito recentemente as autoridades democráticas se dignaram reconhecer - devem-no aos próprios crimes e violências que terão cometido. Sinal de que a humanidade está viva.

Os crimes na guerra colonial portuguesa – para além do crime primordial decorrente da própria ilegitimidade da guerra e da sua ilegalidade á face da ONU – foram muitos. Crimes de deportação, esboço de crimes de genocídio, de racismo, de escravatura, de assassinato individual ou em massa. Massacres portanto. À luz das leis e regulamentos em vigor podiam e deviam ter sido punidos e desencorajados. Mas não o foram porque isso não interessava, antes pelo contrário, aos altos comandos. Estes aceitavam aquela espécie de esquizofrenia beata e sinistra. Não queriam que qualquer moralidade incómoda contribuísse para uma tomada de consciência nem para diminuição da perfomance dos militares, ainda por cima quando o Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, tinha obra feita sobre a mais vasta questão envolvente: «os indígenas são súbditos portugueses mas sem fazerem parte da Nação»; «os cruzamentos ocasionais ou familiares são fonte de perturbações graves na vida social de europeus e indígenas”; «os pretos têm de ser dirigidos e enquadrados por europeus, e olhados como elemento produtivo enquadrado ou a enquadrar numa economia dirigida por brancos». Portanto de humano só tinham a forma. Nem os navegantes de quinhentos ousaram tanto.

Nas guerras coloniais a estratégia militar conta, substancialmente, com a actuação das polícias treinadas na recolha de informações através dos denunciantes pagos ou voluntários, do terror, da tortura, do assassinato exemplar, do rapto, tudo aquilo que desde a CIA, à KGB, à Mossad, à Sûreté e DST, à PIDE executavam ou executam.

O comando das operações conta, pois, com as mais criminosas e sinistras organizações e forças repressivas, sejam legais ou clandestinas. Assim os militares tentam mostrar-se nobremente com as mãos limpas e as almas lavadas insinuando que o trabalho sujo é feito pelos outros.

A PIDE na sua bestialidade congénita era a base de todas as principais informações dos estados maiores militares, extorquidas por todos os meios conhecidos na metrópole e outros dado tratar-se de seres tão bem caracterizados pelo Professor Marcelo Caetano. E de outra maneira não podia ser. As FA’s não tinham serviço de informações adequado para aquele tipo de guerra.

Mas, muitos comandos operacionais, não raras vezes optavam por serem eles a encarregar-se da eficaz e atempada recolha de informações. E de fazer justiça a tempo!

Ou seja, «o pacífico e generoso» 25 de Abril só foi possível à custa de muitas mortes, muitos crimes contra os direitos humanos e dos povos.

A guerra colonial portuguesa inicia-se quando praticamente estavam concluídos os programas4 de libertação das colónias. Foi uma guerra de regime. O regime sabia que Amílcar Cabral tinha razão quando afirmou que o fim do colonialismo seria o fim do fascismo. Dependia da guerra para sobreviver mas seria a guerra a liquidá-lo. Foram precisos longos anos de sofrimento. Hoje defende-se serenamente que o regime aguentaria uma transição à espanhola. Dando de barato o papel que a revolução portuguesa teve na transição em Espanha, o regime de Franco não dependia das colónias e rapidamente abriu mão do Saara, de forma miserável, aliás.

A ala liberal de Sá Carneiro por seu lado, esperava que se cumprisse a segunda asserção da frase de Amílcar: pode cair o fascismo e não terminar o colonialismo... Mitigado, claro, mais distante, ligado à Europa!

A guerra colonial portuguesa diferiu fundamentalmente das outras, nomeadamente da francesa, porque estas foram «guerras coloniais democráticas». Sem ironia:

- segundo os cânones que hoje começam de novo a vigorar, uma guerra de agressão é legítima e democrática se as sondagens ou as votações no país ou países agressores mostrarem apoio da opinião pública. Mas, segundo os mesmos cânones, o contrário não será tido em consideração. Portanto, a invasão do Iraque foi seriamente contestada mas apenas pelos milhões que não se regem pelos parâmetros dados como referência nos respectivos países. Também a Alemanha e a França aderiram, embora com atraso, ao cânone e deixaram de ligar às suas próprias opiniões públicas mas apenas às «interessadas», para darem o seu acordo ao crime a posteriori, possibilitando a cobertura da ONU. Sabemos porquê, o instinto colectivo de sobrevivência sobrepõe-se às contradições circunstanciais. Por isso o poema de Harold Pinter é, como diria António Machado, a palavra exacta no tempo - Democracy: There’s no escape / The big pricks are out / They’ll fuck everything in site / Watch your back. March 2003.5

Assim, as guerras coloniais da Grã-Bretanha e da França terão sido democráticas. Tiveram apoio popular em democracias consolidadas. A brutalidade dos ingleses resolveu-se elegantemente no appartheid grande e nos appartheids pequenos. E a brutalidade dos franceses, conseguiu ser superior à dos portugueses que tinham como paradigma os Gamas, Castros e Albuquerques, capazes não só de matar a ingente turba mas também de mandar cortar os cascos aos cavalos.

As lutas de libertação nacional, as lutas contra o colonialismo, a liberdade das colónias, portanto, tão apoiadas a posteriori pelas democracias actuais, não são filhas da mãe dessas mesmas democracias. Isto é, não são filhas da grande Revolução Francesa.

Só com a preparação e a realização da revolução de Outubro se estabelece a teoria que deu alimento à base material que incitava os povos colonizados à luta de libertação. Também na Índia, onde o movimento pacifista de Gandi surtiu efeito porque acompanhado por muitos levantamentos armados. Amilcar Cabral, Agostinho Neto, Mandela, Kaunda, Nyerere, N’Kruma, Machel, inspiraram-se nessa teoria, de uma forma ou de outra, mais próximo ou mais afastados - e Franz Fanon, o pai da revolução africana.

Por isso, Amílcar Cabral pôde escrever, com razão: «o fim do fascismo pode não significar o fim do colonialismo; mas o fim do colonialismo significará forçosamente o fim do fascismo».

Daí decorre também que toda a lenta subversão das FA’s ao longo de 13 anos de guerra, teve muita inspiração das teorias libertadoras e socialistas. Começara nas universidade, em luta contra a política fechada às artes e ciências, à liberdade de expressão e de pensamento, contra as condições de acesso e programas, a perseguição no interior da própria universidade; e continuara com a oposição à guerra colonial que se tornou depois do Maio de 68 no principal motivo de combate ao fascismo, tomando uma importância tal que envolveu as lutas operárias.

Saltou para dentro das FA’s, tendo os profissionais começado a procurar saída para o buraco sem saída. Ou melhor: com uma única saída. Que a luta do povo português, sofrida mas corajosa - as deserções, as recusas a cumprir ordens avolumando-se, as condições de vida deteriorando-se, os filhos morrendo ou regressando sem braços, sem pernas, sem uns nem outros, a censura e as perseguições da PIDE aumentando na proporção da resistência – ajudou a encontrar. E que a luta dos povos coloniais, ao impor uma derrota militar no terreno ajudou a apressar.

Por isso Spínola apenas teve, naturalmente, o apoio de todos os fascistas à sua resistência contra o programa de independência imediata das colónias, mesmo sendo ele o putativo - apenas isso – chefe da rebeldia. A chamada federação que ele preconizava era uma esperança para segurarem alguns anéis africanos que os outros nunca os perderam verdadeiramente.

Daí quererem que fossem mais tropas para África para se fazer uma «descolonização decente» como diz o protofascista Paulo Portas, actual Ministro da Defesa do Governo de Durão Barroso.

Uma descolonização com o que tal implicava de acordos, consensos, planos comuns para interesses convergentes, já só teria sido possível em 1961 quando um grupo de generais ameaçou debilmente Salazar, pressionados quer pelos apelos e exigências de Amílcar e outros líderes africanos para uma autodeterminação pacífica quer pela suspeita do desastre em preparação. Mas Salazar brincou com eles e daí a meses estava a mandar as tropas «para Angola e em força» cantando «Angola é nossa».

No 25 de Abril os capitães tinham as rédeas embora tenham feito concessões de que se viriam a arrepender: a Spínola, a Personalidades impantes que achavam dever sofrear a liberdade à solta na rua, porque para eles a liberdade deveria apenas servir à sua medida. Também, naturalmente, muitos capitães procuravam o seu caminho dentro da disputa livre, aberta, democrática. Só que a maioria não o fez às claras. Ora, em democracia, ou há claridade ou entra-se no reino da hipocrisia, da mentira, da corrupção.

O que decorria, obviamente, da revolta dos capitães, era o fim da guerra. E o fim da guerra significava a independência das colónias. E a independência das colónias exigia negociar com quem fazia a guerra (independentemente de proximidades ou distâncias ideológicas, como reconheceu na altura o próprio Mário Soares). Negociar naquelas circunstâncias significava acordar a transmissão de poderes entre dois aliados que tinham acabado de vencer o mesmo inimigo, mas em que um deles não estava em condições de exigir mais do que respeito e dignidade. E isso aconteceu. Não houve descolonização, nem boa nem má.

De facto, por de cima de todas as reflexões e locubrações mais ou menos teóricas, não havia tropas disponíveis nem dispostas a continuar a matar e a morrer quando a liberdade do povo português e dos povos das colónias era a única palavra audível. Depois a palavra socialismo juntou-se-lhe – mobilizando o povo para as grandes conquistas democráticas.

O móbil do movimento dos capitães, é preciso não esquecer, fora acabar com a guerra. Porque a guerra estava perdida, antes de todas as teorias e ideologias começarem a fazer, muito justamente, o seu caminho. Para acabar com a guerra só derrubando o regime e para derrubar o regime houve que desagregar as Forças Armadas que eram o seu sustentáculo e o seu instrumento numa guerra perdida desde o seu primeiro dia, no longínquo 4 de Fevereiro de 1961. E essas Forças Armadas tinham acabado de prestar, um mês antes, vassalagem ao ditador.

Por isso foi possível o PREC. A força da hierarquia e da repressão estava quebrada e os soldados respondiam aos apelos populares virando a cara aos generais que não tinham sido destituídos ou mesmo presos – por pouco tempo.

Assim, hoje, para as Forças Armadas portuguesas o momento de maior glória não foi o 25 de Abril – que não sabem comemorar, porque realmente não o fizeram! - mas a guerra colonial. Mas dentro do seu próprio e vetusto cânone, sabem dar apoio ostensivo e já oficial às manifestações de nostálgicos dos privilégios da guerra e do fascismo. Que aproveitam a lassidão da democracia e a vetustez das caquéticas FA’s, para pressionarem no rumo do seu ministro da defesa. FA’s que fingem ignorar que, se não fosse o 25 de Abril, teriam sofrido a mais vergonhosa derrota da sua história.

E foi o encontro dos povos mutuamente libertados, o encontro entre os falsos inimigos inventados pelo fascismo e pelo colonialismo, agora unidos pela liberdade, foi a aura resplandecente desse acto primordial de criação que envolveu também as FA’s, tornando-as parte da vitória – a única felizmente possível - que tanto fizeram para impedir.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Artigo de Mário Tomé «Um Rio Cresce Gota a Gota» | A COMUNA

Vou deixar mais um artigo de Mário Tomé, este sobre a situação preocupante no Afeganistão e o envolvimento da Comunidade Internacional (43 países envolvidos na guerra no Afeganistão!).

O artigo é brilhante e muito esclarecedor e o tema não podia ser melhor comentado não fosse o Coronel Mário Tomé um especialista nesta temática da guerra.

O artigo saiu na publicação "A Comuna" que pode ser consultada on-line.

JOÃO

  Um Rio Cresce Gota a Gota* 
12-Jul-2010

Na recente visita a Portugal, o Secretário Geral da NATO tornou públicas as suas preocupações quanto à evolução da situação no Afeganistão pois, sublinhou, a vontade de retirada das tropas estrangeiras do Afeganistão choca com as grandes dificuldades em estruturar um estado democrático num país com a história, costumes e tradição como aquele.

Artigo de Mário Tomé

A tal preocupação parece responder o novo comandante chefe , o general Paetreus que vai lançar a operação «Civis ao ataque» (título meu), ou seja armar os civis para combaterem os talibãs.

Uma excelente táctica se a história não tivesse já demonstrado ser uma cretinice. Durante todas as lutas de libertação contra o colonialismo terminando na Argélia, a mais «francesa das regiões de França!!!», na guerra do Vietnam, na guerra de libertação de Timor-Leste, no Sahara Ocidental, o aliciamento das populções não passou nem passa de uma representação dramática: o invasor finge acreditar que as alicia e as populações fingem deixar-se aliciar.

Os invasores, a NATO, no Afeganistão vão continuar a bombardear as populações com os seus drones, a invadirem as aldeias durante a noite à procura de talibãs, , prendendo para averiguações, matando, tortutando e violando («se as mato por que não as posso foder?», perguntava um soldado norte-americano no Iraque), aterrorisando. E as populações vão continuar a acenar e saudar para mais à frente porem uma mina ou se fazerem rebentar no meio de militares ou de políticos ou simplesmente numa praça ou num mercado.

A guerra no Afeganistão está perdida pelos EUA. A disputa pelo controlo do país, com a Rússia, o Irão e a China, a venda de armas aos senhores da guerra, aliados preferenciais dos EUA, só pode provocar mais sofrimento ao povo afegão que não perdoará quando puder realmemnte libertar-se dos invasores ao mesmo tempo que dos seus fantoches no governo, da opressão criminosa dos senhores da guerra e dos talibãs.

O maior problema com o governo não é a corrupção que é, aliás, absoluta: é ser dominado pelos senhores da guerra e suas milícias, tão fundamentalistas, tão brutais, assassinos  criminosos quanto os talibãs. Com uma diferença: é que praticam os crimes à sombra do governo e do seu tutor, a NATO e seus parceiros (estão tropas de 43 países no Afeganistão), i.e. os EUA.

O General Loureiro dos Santos, um «natista» com olhar crítico, afirma que ao novo comandante-chefe, Paetreus, restam três variáveis para poder cumprir a missão: «capacidade de criar boas relações com os protagonistas políticos; um eventual ajustamento das regras de empenhamento no teatro de operações; modificação do ritmo de retirada.».

É claro que ritmo da retirada depende dos outros dois factores.

Os EUA retiram desde que consigam fazê-lo sem perder a face e garantindo o controlo do país, ou seja o controlo da passagem do gás e do petróleo do Cáspio para o Paquistão, a Índia e a China. Para tal têm que intensificarem a guerra, nomeadamente os bombardeamentos pelos «drones» perdendo ao mesmo tempo qualquer capacidade de «conquistarem as almas e os corações» - como diriam Kaúlza e Spínola pouco antes de perderem a guerra – um dos objectivos do Secretário Geral da NATO; e depois reforçarem e legitimarem o poder dos senhores da guerra, as únicas entidades, para além dos talibãs, com capacidade para assegurarem o controlo político e militar das províncias afegãs.

Os senhores da guerra, que a imprensa tenta mostrar em contradição com Karsai, permanecem desde sempre a mandar nas suas províncias, a mandarem na Loya Jirga (Assembleia Nacional), a traficar ópio, a imporem a sua ordem medieval contra o povo, em particular contra as mulheres. A sua luta contra os talibãs é a mesma luta pelo poder desde a guerra civil que se seguiu à derrota dos soviéticos.

A hipótese de uma guerra civil – que a imprensa ocidental apresenta como um risco terrível se a NATO retirar as suas forças - em nada alterará a real situação do povo afegão: ele vive, já hoje, oprimido, massacrado, assassinado pelos talibãs, pelos senhores da guerra e pelas tropas da NATO.

Com a saída das tropas da NATO seriam menos uns criminosos com que o povo teria de haver-se.

Os «danos colaterais» dos bombardeamentos, ou seja o massacre de civis, está a fazer com que muitos deles se juntem aos talibãs para combaterem o ocupante.

A imprensa ocidental, salvo raras excepções como John Pilger e Robert Fisk, é de um servilismo criminosos perante a estratégia imperialista. Quem a lê fica com a ideia de que o povo afegão é apenas um elemento passivo, que a democracia no Afeganistão é impossível se não for imposta pela guerra e pelo terror da NATO, como se tira das declarações do Secretário-Geral, na sua visita a Portugal, perante as espinhas curvadas dos ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa.

Malalai Joya é a voz heróica do povo afegão e, fundamentalente, da mulher afegã.. O seu livro «A JOIA AFEGÃ/UMA MULHER ENTRE OS SENHORES DA GUERRA» editado em Portugal em Maio último pela «QUIDNOVI», é uma obra arrepiante: pela denúncia da terrível situação imposta pelo invasor ao povo afegão e pela coragem sem limites da sua autora.

Aí ela aponta à comunidade internacional os passos necessários para resolver a situação no Afeganistão:

Parar a guerra e não intensificá-la; envio de verdadeira ajuda humanitária – os EUA gastam 100 milhões de dólares por dia na guerra e a ajuda humanitária reduz-se a sete milhões a maior parte dos quais desaparece na corrupção; acabar com o domínio do senhores da guerra, impondo o desarmamento efectivo das milícias; retirada de todos os militares estrangeiros.

E a cada um de nós propõe como tarefas:

Mantermo-nos informados; juntarmo-nos aos grupos que trabalham honestamente para apoiar os homens e as mulheres no Afeganistão, inclusive com apoio financeiro; controlarmos, criticarmos e esforçarmo-nos por melhorar a política externa do governo português; participar no processo político e na organização da defesa da justiça social em Portugal.

A voz límpida de Malalai Joya chega até nós. O seu livro é a um tempo uma denúncia sem reticências, um manifesto revolucionário, a descrição de uma caminhada sem retorno , de uma entrega total à libertação do seu povo, uma prova de convicção inabalável, de determinação absoluta, de coragem e de humildade esmagadora.

Impossível não o ler!

* Do livro «A Jóia Afegã...»

terça-feira, 29 de junho de 2010

Artigo de Mário Tomé «José Saramago: Flor Agreste»

Vou deixar um artigo de Mário Tomé, sobre José Saramago.
O artigo saiu em "A Comuna" e é tão genial que dispensa qualquer outro comentário.
JOÃO

 José Saramago: flor agreste
28-Jun-2010

Escarro e Escarrilho aplicadamente de volta de Germano Vidigal, assalariado agrícola e comunista – também ele «erva daninha em campo de trigo» como o Oservattore Romano classifica José Saramago no obituário que o Vaticano mandou escrever. Destroçando com método, apesar da desvairada bestialidade, o corpo, que tinham ao dispor que não a alma, resistiu e resistiria até que o cansaço se apoderou deles e, certos de que, inerme e obstinado, já não lhe arrancariam uma palavra, o «suicidaram» com um arame à volta do pescoço preso a um ferrugento prego pregado na parede, Germano de joelhos pelo esgotamento do corpo que não perante eles, o Escarro e o Escarrilho.

Artigo de Mário Tomé

A total bestialidade não só fazia parte dos manuais da Gestapo, como havia de ser precursora dos procedimentos aplicados em Abu Grahib e Guantanamo e nas cadeias espalhadas por essa Europa unida que se abriram, hospitaleiras, aos inconfessados prisioneiros da CIA.

Nunca os latifundiários senhores da terra que no processo de “modernização” do fascismo iam, por cissiparidade, gerando os futuros patrões que haviam de dar nova dinâmica ao capitalismo, libertando-o das peias salazaristas e lançando as pedras daquele que havia de ser o PSD, assim que a revolta dos capitães e a fugaz revolução lhes deram asas - sempre de vampiro - pensaram vir a ter tão grande importância na defesa da civilização ocidental e cristã e na luta contra o terrorismo.

De facto eram eles, em última instância, quem assegurava a integração social daquelas bestas, dedicados torturadores, tantas vezes chamados ao dever sem empecilhos burocráticos por um telefonema ou simples recado mandado da herdade através de zeloso feitor .

O carreiro de formigas que ia e vinha pela sala onde Germano Vidigal estava a ser assassinado (a murro, pontapé, vergastada e paulada) com métodos que a Santa Inquisição dispensaria porque já no seu tempo usava ferramentas tecnologicamente mais avançadas, foi a única testemunha credível do que realmente se passou.

E como reza a pagina 176 de Levantado do Chão, de José Saramago, «Lavra grande indignação entre as formigas que assistiram a tudo, ora umas, ora outras, mas entretanto juntaram-se e juntaram o que viram, têm a verdade inteira, até a formiga maior, que foi a última a ver-lhe o rosto, em grande plano, como uma gigantesca paisagem, e é sabido que as paisagens morrem porque as matam, não porque se suicidem.».

A Igreja encontra um adversário à altura

«Já o adiantamento do ateísmo abstracto implicava um novo materialismo social que não era mais que o comunismo» Daniel Bensaïd

A obra de José Saramago foi apreciada por esse mundo fora e ele foi, talvez, o Prémio Nobel da Literatura que melhor soube aproveitar esse galardão tão ou mais político que literário, usando-o durante 12 anos numa luta intensa e pertinaz em defesa da humanidade dos seres humanos e da sua dignidade, combatendo o obscurantismo político, social e religioso.

A compaixão que atravessa a obra de Saramago, numa profunda empatia com todos os que sofrem, pondo acima de tudo o respeito pela dignidade humana, não é reconhecida pela Igreja porque não se queda pelo dossel metafísico que desconhece a revolta, antes se transforma, na literatura de Saramago e na sua acção como militante político - que o foi em toda amplitude - em urgência de agir e mudar radicalmente o mundo.

A mais que justificada hostilidade do Vaticano a Saramago decorre, não tanto do seu ateísmo militante, mas mais da sua sensibilidade «metafísica» (o Vaticano, erradamente, acusa-o de não ter consciência metafísica – tem-na e muito aguda, por isso a desmascara tão certeiramente).

Saramago usa a metafísica como metáfora da própria realidade para, indo ao encontro da ânsia de infinito ou de «nostalgia do absoluto» (Steiner) da humanidade alienada pela sociedade de classes (marxista!, acusa, e bem, o Vaticano), lhe dar, através da sua arte literária, instrumentos de racionalidade dialéctica.

A Igreja ao procurar o aggiornamento civilizacional para não permanecer colada às trevas do fim do mundo e à celebração da morte (sem a qual não existiria, como Saramago certeiramente acusa) atrapalha os mais inquietos teólogos que bem tentam dar a volta ao texto, estando agora na fase aguda de ver no ateísmo a prova da existência de Deus (enfim, um deus), de O descobrirem já em todo o lado menos onde o Cânone no-lo impõe há dois milénios, de saudarem o ateísmo como avatar de profunda religiosidade!

Em último e desesperado recurso, sabendo que os avanços sociais, culturais, civilizacionais, os avanços no respeito pela dignidade humana, os progressos na ética enquanto realidade histórica e não fixada num cânone, onde muitas vezes a Igreja está de fora, apenas foram possíveis com o progresso material e científico, vão sendo obrigados a admitir que a Bíblia poderá não ser mais que a continuação do canto de Guilgamesh ou da Odisseia, de uma história contada de geração em geração - quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto, como diria Saramago - como bálsamo para os tristes sofredores e como alegria e garantia de poder dos tristes que se apoderaram dos rendimentos do vale de lágrimas.

(“O passado das civilizações nada mais é que a história dos empréstimos que elas fizeram umas às outras ao longo dos séculos...” - Fernando Braudel)

A fábula ininterrupta, cantada pelos aedos através dos milénios, reflectindo as angústias e anseios da humanidade, desagua na Bíblia onde é transformada numa dogmática obscurantista, na persistência primitiva da sua inspiração, incapaz de evoluir historicamente, o que é ao mesmo tempo a segurança do seu poder. O cinismo é, pois, a marca d'água do Vaticano.

A Humanidade no centro

A necessidade teológica de se ater ao Livro (a Bíblia) choca irremediavelmente com a necessidade de não perder o rebanho em cada época histórica, rebanho atraído, solicitado, obrigado pelo desenvolvimento material só possível em estado de pecado...

Na obra de Saramago, a metafísica como metáfora da realidade material desmonta a incongruência com uma eficácia que a desmontagem científica radical de um Richard Dawkins não alcança.

Fábula contra fábula, ganha Saramago. Pela qualidade da efabulação, pela originalidade e beleza literária, pela arte com que aprofunda os mitos e os leva ate às últimas consequências deixando-os, solitários, reduzidos à sua beleza literária, libertando a realidade humana em toda a sua magnífica e material complexidade capaz de admirar os próprios mitos com que a pretendem amarrar. Daí a compaixão saramaguiana pela tragédia da humanidade rendida ao mito transcendente salvador e a necessidade de, por isso mesmo, ser implacável na demolição das suas raizes. A literatura presta-se à fábula e assim deve ser, creio. Daí o supremo valor de Saramago neste plano.

São raros, se os houver, os escritores que terão a violenta lucidez de abalar tão fortemente o edifício mitológico onde habita e se esconde o poder secular da Igreja pois que, verdadeiramente espiritual não o tem. («Aquele, escuta-o e segue-o. É um verdadeiro mestre. Respondo, Não. Porque tal confiança é idólatra. É preciso que seja eu a dar a autoridade ao meu mestre» Jésus, Henry Barbusse)

Resta-lhe a idolatria e o culto do mistério como resposta mágica e sobrenatural, que tem conseguido dissolver lucidez potencial da humanidade, submetendo-a à irracionalidade.

Até escritores assumidamente ateus raramente se esquecem de referir a Bíblia como inspiração, se não mesmo como referência, de contar as vezes que a leram com deleite, a mesma Bíblia (O Antigo Testamento mantém-se como literatura estruturante da crendice, apesar de Cristo – história ou mito - nela não se reconhecer - ver o estranhamente belo Jésus de Henry Barbusse.) que Saramago classifica como um manual de maus costumes tendo por inspiração a crueldade gratuita porque determinada pelo capricho arbitrário do Senhor.

A grande Obra de Saramago, afirmando-se e impondo-se como monumento da literatura universal, transcende-se ao rasgar a cortina do mistério, reduzindo os mitos à necessiadde dos humanos, deixando-os nus na sua intrínseca beleza e própria crueldade natural.

A obra de Saramago impõe a crítica positiva e racional que a própria Igreja não consegue já negar mas que persiste, obviamente, em contornar e manipular com uma triste e única segurança: mesmo que assim «fosse», antes de tudo vale o mistério indecifrável e é nisso que reside o seu valor e a sua verdade.

Tudo o que as civilizações humanas, mais titubeantes ou mais decididas, procuraram e procuram, desde Homero a todos os filósofos gregos e poetas romanos, à civilização da cibernética, o conhecimento e o saber, a Igreja nega e recusa mesmo quando obrigada a vergar-se ao pragmatismo social.

Isto vale para a ideologia religiosa como para a ideologia do capital. Saramago não hesitou nunca, por mais que isso lhe pudesse criar inimigos políticos, pessoais e institucionais. Também nisso é exemplo.

O Prémio Nobel permitiu a Saramago tornar-se o mais importante arauto dos direitos humanos, da luta pela liberdade e pela dignidade da pessoa humana, da libertação dos povos, da denúncia do terrorismo de Estado e da condenação do terrorismo fundamentalista, do questionamento da democracia inquestionável, provocador admirado e amado militante político global. Em defesa de Cuba bloqueada por fora até à contestação e ao divórcio da Cuba amordaçada por dentro, da esperança de Chiapas à dor e luta da Palestina, do esboço revolucionário na Venezuela à firmeza dos Sahauris, Saramago foi um incansável peregrino, mostrando ao mundo, através da sua própria projecção de escritor nobelizado, o que o mundo não deve tolerar.

Cavaco em contra-ciclo

O temor a Deus desencadeou aquilo a que hoje, perante a não comparência de Cavaco no funeral de Saramago, se tem chamado de «questões menores» que deveriam ser atiradas para trás das costas em momento tão solene. Cavaco pode ser bronco mas não é parvo: ele sabe que não são questões menores. São questões centrais que na altura o fizeram querido da Igreja e dos talibãs católicos que agora querem outro candidato.

Durante o seu consulado, em 1991, teve lugar um brutal e miserável acto censório, pela mão do subsecretário de Estado Sousa Lara, sob a tutela de Santana Lopes e o alto patrocínio do Primeiro Ministro Cavaco. «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» foi impedido de concorrer a um prémio europeu. Razões, se alguma houvesse ou pudesse ser invocada, que não podia, Sousa Lara apresentou-as em plenário da AR: segundo Lara o livro feria os católicos e o catolicismo, religião maioritária em Portugal. Portanto, o Governo ao assumir a defesa, pressupõe-se, dessa maioria, tornava confessional o Estado português.

Este crime contra dois pilares fundamentais da democracia – a laicidade do Estado e a liberdade de expressão de que decorre directamente a ilegitimidade e a ilegalidade do julgamento que o governo de Cavaco fez do «Evangelho...» - crime sem castigo, porque Deus esteve de acordo, apenas teve a condená-lo o blá,blá,blá inconsequente das forças políticas da oposição.

Portanto, agora, Cavaco Silva em pré-campanha preferiu que fosse o seu lacaio da altura, Sousa Lara, a ser confrontado, como foi. E este, relapso, renitente e contumaz, assegurou que voltaria a fazer o mesmo, canalha reincidente.

Cavaco também achou que cairia mal na Hierarquia da Igreja vir ao funeral de um ateu impenitente, crítico sem arrependimento do milagre do mistério e que o Vaticano olharia com beatíssimo entusiasmo a sua atitude.

Mas Cavaco está em contraciclo, e a fronda que a direita mais direita dos católicos, com o apoio sibilino do Cardeal, desencadeou contra o promulgador (na sua luta contra a crise, não nos esqueçamos) do casamento homo, deixou-o descalço.

Confrontando, inesperadamente,aliás, a posição do próprio Vaticano, a Igreja portuguesa sensibilizou-se com a morte de Saramago e elogiou o «grande escritor». Cavaco ficou a nadar em seco...

É o velho «azar dos Cabrais», neste caso dos Cavacos.

A literatura como arte e combate

A escrita de Saramago, não tão sem vírgulas e pontos finais (para quê se isto nunca acaba?) é, assim, mais como um mar de palavras que nos atrai e intimida, onde vamos nadar com as nossas próprias braçadas, no ritmo que formos capazes.

Não no estilo, mas na intencionalidade aberta e militante da literatura, lembra Neruda e Cortazar o mestre reconhecido do romance sul-americano.

Eu, leitor, me confesso: parei a leitura dos romances de Saramago no Ensaio Sobre a Cegueira .. Pareceu-me, então, que terá escorregado um pouco na metafísica que tão bem usou como metáfora da realidade. Decerto erro meu.

Não fui capaz de ler os Cadernos de Lanzarote. Mas da Viagem a Portugal a O Ano de 1993 passando por outros seus escritos e poemas fui-o sempre acompanhando. Tenho todas as suas obras publicadas à espera de melhor apetite.

Os pedintes que o não sabem criticar, porque são incapazes de admirar algo que não seja beato ou banal, à sua própria imagem, esperneiam e blateram com um estilo muito próprio, o do rei na barriga, porque até votam em todas as eleições e a democracia é isso desde que não ponha em causa o verdadeiro Deus que, de facto, idolatram: os oligopólios, as transnacionais; a guerra como instrumento da democracia, a guerra como garantia da liberdade e da virtude, a que chamam o mercado «livre». Não nos esqueçamos que foi desta estirpe que sobressaíram as vozes mais cultas e eruditas exigindo a chacina dos communards em 1871.

O significado e poder da obra de Saramago estão patentes na polarização que, mesmo na hora da sua morte, conseguiu prolongar entre os que o têm como amigo e aqueles outros que temem a influência que continuará a espalhar pelo mundo.
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Observação:
Eu estou a fazer uma página dedicada a José Saramago que será a minha singela homenagem. Mas essa página ainda não está acabada. Pelo menos, o meu texto ainda está a meio.
Dessa página terás ligação com todas as mensagens, comentários, fotografias, vídeos e hiperligações existentes neste Blog.
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domingo, 23 de maio de 2010

Artigo de Mário Tomé: «De Abril a Maio... Aqui chegados...»

Vou deixar um fabuloso e muito esclarecedor artigo escrito pelo meu querido camarada e amigo, Coronel Mário Tomé. O artigo está on-line em "A Comuna".
Mário Tomé foi muitos anos conhecido pelo Major Mário Tomé e chegou a ser dirigente Nacional da União Democrática Popular – UDP.
Foi Membro da Comissão Nacional da Candidatura de Otelo à Presidência da República em 1976, Deputado à Assembleia da República, de 1979 a 1983 pela UDP, e de 1991 a 1995, pela Coligação Democrática Unitária – CDU, resultante de um acordo entre a UDP e o PCP.
Para quem desconhece, a UDP é um dos partidos que está na formação do Bloco de Esquerda!
Não deixes de ler o artigo.
JOÃO

De Abril a Maio... Aqui chegados...
23-Mai-2010

Finalmente o 25!

Cravos em quase todas as lapelas do PSD. Até algumas bestas se desferraram porque precisavam dos cravos para as lapelas.

Aguiar Branco, prestes a preconizar a ditadura do proletariado, aconselhou-se com Lenine e com Rosa Luxemburgo antes do seu discurso do 25 de Abril. Não haviam o BE e o PCP de rir-se, meu velho BB*?

«O bagaço, o andaço, o cagaço», nunca se sabe quando o pessoal perde as estribeiras. É preciso dar-lhe sinal de que também somos povo de Abril. A «revolução do cravo» foi feita para todos lembrou Aguiar Branco… Para quê o preconceito?

Amemos o Zeca Afonso. Amemo-nos uns aos outros sob a bandeira da liberdade, a ambição de todos nós. Não nos deixemos separar pela semântica: povo ou iniciativa privada e social (cá está, social!) é tudo a mesma coisa.

«Dar ao povo o que o povo produzir» como preconiza o Sérgio Godinho. Os da finança nada produzem e engordam astronomicamente. A produção estiola, o povo fenece no desemprego. Porquê? Porque o Estado tolhe a livre iniciativa!

O PSD, pela voz de Aguiar Branco quer mudar a Constituição. Um Estado «neutro», tanto como o PSD, para nos salvar da crise e da dívida externa.

Ex-ministros que trocaram as conquistas de Abril pela engorda da finança apelam a Cavaco, o homem que liquidou quase toda a estrutura produtiva portuguesa, da metalomecânica pesada à industria naval, dos caminhos-de-ferro às pescas, que entregou a liquidação da agricultura aos JEEPs (Jovens Empresários de Elevado Potencial). Que pagou as indemnizações das privatizações de acordo com as avaliações feitas pelos próprios indemnizados, que trocou o apoio ao ensino público pelo estímulo a sinecuras em universidades privadas, que lançou o ataque feroz ao SNS e com isso e muito mais gastou um milhão de contos por dia que vinha da CEE. Não é difícil ver por que se constituiu a enorme dívida, apontada pela rezinguice de Medina Carreira.

Que fazer então? Mudar a Constituição.

A «evolução na continuidade» trouxe-nos próximo do «reencontro com a nossa história» que Sá Carneiro, tendo Cavaco como ministro das finanças, anunciava em 1980 quando esperava eleger para Presidente da República o fascista general Soares Carneiro e liquidar a Constituição de Abril.

Num encontro com militares Manuel Alegre é insultado quando comparam a sua luta anticolonial na Rádio Portugal Livre ao apoio ao terrorismo da Al Qaeda. O coronel Morais da Silva - que no 25 de Abril, chefiando quatro oficiais deixou fugir o comandante de Cavalaria 7 que devia prender -, estimulado pelo andar da carruagem chamou, neste semanário, «garimpeiros» e «ladrões» aos militares que cumpriram as suas missões e se bateram pela democracia política e social, pela revolução de Abril e por isso viram liquidadas as suas carreiras em 76 que só em 2000 foram reconstituídas, sem qualquer indemnização, aliás.

O sonho carneirista/cavaquista está a cumprir-se – uma maioria (PS, PSD, CDS) para o PEC e tudo o que é fundamental; um Governo – Sócrates tem sido o primeiro-ministro da finança e a finança dirige o PSD; um Presidente – Cavaco, que o PS se prepara para ajudar a reeleger com um apoio displicente, renitente, envenenado, a Alegre.

O Portugal que começou a ser concretizado em Abril, da liberdade ao serviço da igualdade, que só um Estado democrático forte controlado pela participação cidadã pode garantir, necessita que se derrote a equipa socrático/cavaquista adquirida por tuta e meia pelo cartel da finança.

*Crónica no DN de 28 de Abril
Mário Tomé